[Crítica] Henfil

O documentário de Angela Zoé (Meu Nome é Jacque) começa com um grupo de animadores procurando material para trabalhar em cima. Eles são “apresentados” a graúna, personagem do cartunista que dá nome ao filme, Henfil. Aroeira, Jaguar, Ziraldo e outros cartunistas parceiros de Henrique de Souza Filho falam dos momentos de intimidade que tiveram com ele na época d’O Pasquim, jornal alternativo e de contracultura existente durante boa parte do regime militar brasileiro.

Para os amigos, Henfil era a alma d’O Pasquim, a pessoa que sacudia o restante do grupo, o que tinha o humor mais ácido e rasgante, e isso claramente se expressa nas suas tiras, algumas sendo reproduzidas em tela, com uma animação. Cabôco Mamadô serviu para expurgar os seus demônios, inclusive no que diz respeito ao sepultamento alegórico de Elis Regina, quando ela cantou nas olimpíadas do Exercito, cena essa muito mal orquestrada na cinebiografia de Elis. O que curiosamente se destaca é que após o ocorrido, os dois foram apresentados e se tornaram muito próximos. Outros famosos foram enterrados como Fernanda Montenegro, Clarice Lispector, entre outros, mostrando que não havia muita complacência da parte do desenhista.

Toda a revolta do artista tinha a ver com a situação do país, mergulhado na Ditadura Militar. Foi daí que ele tirou inspiração para criar Ubaldo, o Paranoico, que segundo suas palavras,  denunciava  o medo e o horror que era viver desse jeito em pleno alvorecer sexual e artístico no restante do mundo. O seu método também é bem flagrado pelas câmeras, desde as sombras que fazia, que dificilmente usava lápis, além de só começar a criar após ler todos os jornais e se inteirar sobre os assuntos cotidianos.

É impressionante como praticamente todas as historias de personagens e inspirações de Henfil tem um tom anedótico. Quando se toca no assunto espinhoso de sua doença, não há pesar, pelo contrário, já que os admiradores animadores que visitam o set chegam a conclusão de que talvez fosse a pressa por terminar sua obra que o inspirou a criar tanto material combativo.

Há episódios inteiros dentro do filme sobre a hemofilia que vitimou o cartunista, e que diminuiu drasticamente sua qualidade de vida, assim como a denúncia ao que ele chamava de complexo de cucaracha, que era uma versão pessoal a respeito do já conhecido complexo de vira-lata falado por Nelson Rodrigues. Zoé também passa por Tanga – Deu No New York Times, filme dirigido pelo biografado, mas que foi um fracasso de bilheteria.

Não há concessões ou sequer momentos “chapa-branca”, apesar de esse Henfil ser um objeto absolutamente reverencial e respeitoso com a sua figura da análise, ao final, a animação dirigida por Gabriel Kalegario, envolvendo os jovens que apareceram no início embalam os créditos do longa, em mais uma mostra do quão forte e influenciadora era a carreira do artista.

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