[Crítica] História da Minha Morte

1066full-story-of-my-death-posterNa pouca filmografia do diretor catalão Albert Serra, é visível sua preferência em abordar aspectos da faceta humana através de personagens retirados da História ou Literatura. Se fosse possível admitir algum sentimento que resulte da obra, dessa vez a curiosidade moveria a pequena fagulha que faz essa obra acontecer.

História da Minha Morte se trata de um encontro inesperado entre Casanova (Vicenç Altaió) e o Conde Drácula (Eliseu Huertas). Com esse plot, você poderia esperar uma trama envolvente do início ao fim, que amarraria a relação entre os dois personagens com paralelos. Mas, de longe, não chega nem a ser parecido com isso. Antes de tudo, o nome de Drácula nem sequer é citado, e o de Casanova é apenas uma vez pronunciado. Temos uma história que não assimila um contexto mas preza por esbanjar belas imagens enquadradas com uma luz barroca predominante nas tomadas noturnas, enquanto, visualmente, o filme ignora equipamentos que produzam alta resolução para abusar do blur, quase como um impressionista: tudo é visível mas turvo ao mesmo tempo.

Mas seria descuido dizer que não existem paralelos; de fato existem, e é apenas o único link entre os dois personagens. Casanova é uma espécie de ser que viveu muito mais que os ao seu redor, confinado em seu mausoléu, aprisionado a simplesmente contar histórias de seu passado, aventuras corriqueiras que não interessam a ninguém além dele, e que ao mesmo tempo são fascinantes para qualquer camponês do século XVIII. E por outro lado, sua faceta mais conhecida é presente em quase todo momento do filme: sua habilidade de seduzir e intrigar quase todas as mulheres pelas quais ele passa é uma característica quase mágica, quem sabe… assim como um vampiro?!

A construção da trama é lenta, se resume em pouquíssimos diálogos que servem de contraponto para os belos enquadramentos. A trilha sonora de câmara é incrível, mas não dura 1/4 da duração, diferentemente do profundo silêncio. Não existe trama a resumir. Além dessa rápida ideia básica que foi introduzida, não resta nada a ser descrito, mas apenas visto. Além de fazer um retrato mórbido dessa personalidade, Serra invoca um conflito inesperado e que demora a aparecer. Seu maior trunfo é nos manter na expectativa para o desfecho.

Texto de autoria de Halan Everson.