Crítica | Homens Brancos Não Sabem Enterrar

Misto de filme de assalto com ode ao esporte, Homens Brancos Não Sabem Enterrar de Roy Shelton começa com uma variação do tema musical da 20 Century Fox, para logo  depois passar para outra musica com elementos Black, cantada por três vocais, do The Venice Beach Boys . A trilha serve perfeitamente a chegada do estranho Billy Hoyle a Venice. O sujeito é vivido por Woody Harrelson, um aficionado por basquete que quer treinar na quadra ao ar livre que Eddie “The King” Farouk e Duck Johnson jogaram no passado.

Logo, o caminho de Billy se cruza com o de Sidney Deane, o malandro feito por Wesley Snipes, e o acaso faz com que apareça a oportunidade dos travarem um crossover 3×3 em quadra. Após impropérios ditos um para o outro, Billy mostra ter uma habilidade grande, sabendo driblar muito bem, fintando bem e acertando passes de difícil execução, isso tudo nos 15 minutos iniciais.

O filme tem uma carga de humor bastante forte, há toda uma gaiatice não só dos dois personagens, mas também nos periféricos. Depois de um tempo e de se confrontarem dentro e fora das quadras de ruas, a dupla passa a trabalhar juntos, praticando pequenos golpes, se aproveitando do fato de serem habilidosos e muito ágeis e não serem tão altos quantos os gigantes – Woody tem 1,78m e Wesley 1,75 – e nesses desafios que fazem, arrumam muita confusão.

O modo como eles e outros personagens se vestem evoca a estética dos anos noventa, onde as blusas de cores gritantes e bonés de tonalidades claras eram moda. Incomoda um pouco os olhos assistir isso, e é até natural que um filme de assalto tenha sido feito nesta época, com a popularidade Michael Jordan sendo tão grande em popularidade. Outro fator preponderante para o filme fazer sucesso, é a brincadeira com o fato de haver um abismo de qualidade no basquete dos homens negros e dos brancos, aludido no título do filme e claro, na aparência de Billy, que além de não inspirar confiança, ainda é o suficiente para que todos apostem contra ele, fazendo ele ser sempre a barbada.

Os locais onde os confrontos acontecem primam por uma realidade enorme, as tabelas onde eles arremessam são enferrujadas, a maioria sequer tem quadrados desenhados, e os efeitos do clima e tempo pesam sempre contra os arremessos de lance livre, e o chão duro pesa contra as quedas dos jogadores. Isso dá uma sensação de veracidade que poucas vezes se vê em filmes de esporte. Por mais glamorosos que sejam os atores sempre maquiados para um jogo, há substância e proximidade do real, e essa atmosfera é bem difícil de ser construída.

A musica de Benni Wallace embala maravilhosamente as trapaças e dissabores de Billy e Sid, mostrando o branco perdendo sua amada, Gloria Clemente (Rosie Perez), uma mulher que prima pela independência e não deixa o seu amado dominá-la – e que curiosamente, vê a possibilidade de ganhar um game show de curiosidades chamado Jeopardy como forma de ganhar algum dinheiro – enquanto o negro tem dificuldades em ter sua independência, ou ter alvos pequenos, como uma casa própria, para ele, sua esposa e seu filho pequeno. Os problemas deles são muito tangíveis, fáceis de tocar e de se repetir na vida real, e isso aproxima o público de seus dramas, são questões universais.

O que não ó universal é o receio de todos em relação a Billy não conseguiria enterrar a bola na cesta, já que há uma crença antiga de que homens brancos não conseguem esse feito. Fato é que isso é uma lenda, e mesmo sendo assim, o co-protagonista não consegue isso, e obviamente o roteiro de Shelton permite que ele tenha algum percalço genérico, onde sua vida dependeria disso e onde ele poderia provar seu valor de maneira bem clichê, mas tão divertida em essência que nem o espectador mais ranzinza implicaria com isso.

Brancos Não Sabem Enterrar foi um filme recebido bem por público e crítica, e ajudou dois atores principais a ganhar o estrelato, deixando de serem apenas coadjuvantes para enfim ganharem notoriedade, com um virando um ator de ação e outro recebendo prêmios por sua dramaticidade anos depois. A amizade dos dois se pavimentou, eles já haviam trabalhado juntos em 1986 em Uma Gatinha Boa de Bola (Wildcats), onde jogavam futebol americano. Eles voltariam a se reunir em Assalto Sobre Trilhos em 1995, três anos após este, Por Uma Boa Briga, também de Roy Shelton, já o cineasta voltaria em outras oportunidades a explorar temas esportivos na sua filmografia, mas brigaria com a Fox, processando eles para nunca mais conduzir nada envolvendo o estúdio.

Os momentos finais são emocionantes, envolvendo a amizade e parceria dos dois jogadores e claro, as relações amorosas que os dois têm, ambas em crise. Todo o esforço de equipe e produção foram recompensados, os dois atores principais treinaram arduamente, seis dias por semana para aprimorar o seu jogo, e as cenas de rachão são sensacionais, sendo assim, toda a parte dramática também ganha significado e peso, que são levados de modo natural obviamente pelo enorme carisma de Snipes e Harrelson, que dão charme a obra como um todo.

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