Crítica | Ida

cartaz

Neve. Jardim. Pegadas na neve do jardim, ou no jardim de neve, nunca saberemos… Tudo mais branco que preto. Neve, mais neve, muito mais, e nela um brilho causado pelo que lá se cria e levanta, mesmo com o mundo engolido pela desolação térmica. O cosmo de Ida é assim, preto no branco e vice-versa, óbvio e silencioso, muito diferente daquilo que os snow flakes em Millennium, de David Fincher, escondem, num filme muito mais antigo, porém filmado em 2013. É orgulhosamente defasado, sem-vergonha quanto a isso por ser totalmente contemporâneo, debaixo dos panos, do hábito católico – por sua técnica tão antiga quanto qualquer monocromia de Ingmar Bergman, potencializada pela tecnologia de luz, sombra e de temas ainda relevantes hoje em dia. Um filme maquiado de velho e que engana quem não vê, sequer sente o que está além.

cena

Ida é um dos melhores filmes de 2014, e não é em vão. Sua excelência é um espelho sob o sol do meio-dia! O filme grita sem dizer nada, é um leque de assuntos sendo prata e pérola, e é universal tendo conventos como cenários contextuais, quase nunca ao ar livre, quase sempre tímido. Seu caráter de identificação subjetiva e abstrata explica a resistência por diálogos expositivos – o filme sente que não precisa dizer muito, já que os olhos fazem o trabalho dos ouvidos fácil, fácil. A cada close da noviça Anna (Agata Trzebuchowska, nasceu para o papel), águia em pele de pardal, a obra é despida em nosso subconsciente como um tiro na cara. A gente sabe o que vê, mas explicar é outra história. Quando Anna vai assistir, no escuro, na surdina, a um concerto de rock’n roll em uma de suas viagens pela Polônia com sua tia Wanda (Agata Kulesza), seus olhos desenham a aquarela de um primeiro amor totalmente incompreensível, temeroso ao extremo tanto quanto inocente acerca do instinto que brota debaixo do manto negro, moral e muito mais que só o espectador poderá – ou não – decifrar.

Obra, portanto, de causas e consequências, muito bem contrabalanceadas sem quase um pio. A religião é, contudo, nem uma nem outra, e sim meio, caminho regulador começado no difícil passado familiar da noviça, e de término incerto até o final, um fim no mínimo surpreendente devido, o qual somos (des)preparados para aceitar, no desfecho.  A todos quer afetar com semi-conclusões e dínamos atirados a interpretação, à lucidez obrigatória do público, o diretor Pawel Pawlikowski, filósofo e escritor europeu, faz qualquer um esquecer-se da popular Polônia dos filmes antigos de Andrzej Wajda ao usar e abusar dos aspectos sóbrios, emocionais e misteriosos de outros mestres, como Carl Theodor Dreyer (A Palavra), Kenji Mizoguchi (Rua da Vergonha), Yasujirô Ozu (Era Uma Vez em Tóquio), Claude Chabrol (Os Primos), Jacques Rivette (lembrado nas cenas externas), ou o próprio Bergman (Persona é influência óbvia), sendo Anna a provável versão feminina do santo Francisco, do clássico de 1950 de Roberto Rossellini, mas com uma certa angústia interna que remete ao Zé do Burro, de O Pagador de Promessas. O Cinema dorme em paz quando trata de emoções humanas.

Anna é a Madalena que foi para o mar, na menção a Chico Buarque. Foi ao mundo, outro mundo, o de céu azul, azul original que Michelangelo reproduziu na capela. Um road-movie banhado na decisão pessoal de almas livres, ainda que, no filme, pesadas e trancafiadas por preceitos às vezes corrosivos nos direitos de ir, vir e ser. Tal resolução encontra seus desafios na história e seu tempero na roda de valores do filme, valores céticos apenas à falta de liberdade humana e de identificação de um ser diante do livre-arbítrio e que consiste em ser, por fim, um ser coletivo e individualmente emocional e plural. A noviça vai aprendendo isso na estrada, ao empinar pipa com sua vida no papel, lá em cima. Sempre temerosa, em contraste com a autoconfiança e mão leve de Pawlikowski, sempre ciente das escolhas e rumos do seu filme. Bela obra, ademais além de sua aparente algidez albina.