[Crítica] A Identidade Bourne: Renascido em Perigo

A Identidade Bourne

Um homem de origem e nome desconhecidos é encontrado à deriva, navegando sozinho e próximo de morrer. Resgatado por um navio pesqueiro, o tal sujeito é tratado por Giancarlo (Orso Maria Guerrini), um homem que cuida de suas feridas, além de acolhê-lo, sem maiores delongas ou indagações, excluindo o fato de ter extraído do corpo do estranho uma bala. O personagem de Matt Damon demora a se encontrar no tempo e espaço, ainda mais quanto a sua própria identidade, uma vez que guarda consigo uma porção de carteiras falsas. O pouco que sabe é que possui capacidades sobre-humanas e habilidades de fuga e sobrevivência irreais para os padrões comuns.

Baseado no livro de Robert Ludlum – que já havia sido adaptado em uma minissérie de TV protagonizada por Richard Chamberlain –, A Identidade Bourne: Renascido Em Perigo foi um exercício de escapismo com superespiões, ainda que seu caráter seja de uma realidade bem mais palpável e visceral do que observada em Missão Impossível e nos filmes clássicos de James Bond, inclusive influenciando a nova faceta em 007 – Cassino Royale, já com o novo intérprete.

Apesar de não ser o ápice da cinessérie, o diretor Doug Liman consegue imprimir todas as características ímpares do personagem e de seus dramas já neste primeiro filme, estabelecendo sua confusão mental e a dificuldade de encontrar seu código ético e motivação para viver. O encontro casual que tem com a personagem Marie (Franka Potente) serve bem ao propósito de espelhar a sensação de extrema insegurança que assola o personagem-título, servindo quase a perfeição na montagem desse paradigma de busca pela normalidade do homem, em contraponto com a completa utopia vista nas mínimas atitudes dos outros personagens, com um grupo de vilões que beira a canastrice e caricatura. Artifícios que visam um inteligente comentário social, associando a paranoia dos Estados Unidos pós-11 de setembro a algo bobo e pueril, enquanto o homem comum – no caso, Bourne – tenta virar-se como dá.

A busca por encontrar a si mesmo faz o herói se encarar como algo bem diferente do que sua nova moral estabelece como certo e errado. O contato com Conklin (Chirs Cooper) faz com que relembre as memorias suprimidas pelo superego, enxergando finalmente a faceta que sempre lhe foi comum, justificando o motivo que o fez tentar ser resgatado. Ao ser retirado das águas, o antigo Jason Bourne estava morto, e sua nova vida deveria começar a partir dali, cortando qualquer laço com os que o viam apenas como uma máquina de matar.

A paz alcançada no final mais se assemelha a um fantasioso prólogo, um evento entrópico na vida de um personagem que é bruto por natureza e que teria por regras o caos e a guerra, não só aventados nos sinais presentes no roteiro de W. Blake Herron e Toni Gilroy, mas também no modo com que Liman conduz as cenas, utilizando luz difusa e completamente destoante de todo o filme. Apesar de inferior em relação às sequências comandadas por Paul Greengrass, A Identidade Bourne consegue alcançar o status de um competente filme de ação, contendo cenas muito bem construídas e uma discussão filosófica madura, especialmente para uma exploitation de super espião.