Crítica | Invocação do Mal

the conjuring - poster

Muitos roteiros valem-se do recurso de afirmar que a trama é “baseada em fatos reais” para dar mais peso à história. Neste caso, não é apenas um recurso narrativo. Essa tática já é tão manjada e utilizada tão sem critério que confesso ter duvidado dessa premissa e “googlei” o nome dos personagens depois de assistir ao filme. Ed e Lorraine Warren realmente existiram, foram demonologistas amplamente conhecidos e reconhecidos, e o roteiro baseia-se nos arquivos dos casos investigados pelo casal.

O roteiro não prima pela originalidade, afinal não há muita margem para a criatividade ao escrever sobre uma casa mal-assombrada. Não há como escapar de sussurros e ruídos estranhos, portas e janelas se abrindo, ou se fechando, aparentemente sozinhas, pancadas no chão e paredes, quadros e objetos decorativos sendo jogados ao chão. Mas mesmo assim é bastante eficiente ao focar-se mais na tensão causada pela existência da “assombração” do que nos sustos em si.

O prólogo – quase uma pegadinha para quem não faz ideia do que se trata o filme – funciona muito bem ao apresentar o casal de investigadores e seu modus operandi. Há, embutida nele, a dica de que o filme não se resumirá a sustos e gritos histéricos, como boa parte dos filmes de terror infelizmente costuma ser.

A estória se passa no início dos anos 70 e vale a pena reparar na reconstituição de época que não deixa a desejar. Desde os carros, até as roupas – as estampas de vestidos e camisolas, os cortes dos ternos e camisas – passando pelos penteados – o que são aquelas costeletas? rs – e elementos do cenário – mobília e eletrodomésticos. Sem contar a trilha sonora, quase toda diegética, com ótimos hits da época.

O elenco está muito bem, com destaque para Vera Farmiga (Lorraine Warren), lógico. Um rápido flashback sobre um caso investigado que “desandou” talvez explique sua constante melancolia, mas mesmo assim, sua cara de tristeza durante todo o filme às vezes parece meio forçada. Patrick Wilson (Ed Warren) não desaponta. Lily Taylor (Carolyn Perron), quase no mesmo clima de Hemlock Grove, consegue nos fazer esquecer do péssimo A casa mal assombrada. Ron Livingston, o eterno Tenente Lewis Nixon em Band of Brothers, é bem convincente como o único homem numa família de seis mulheres.

Não sei se é realmente o melhor filme de terror dos últimos tempos. Mas certamente James Wan – responsável por Jogos Mortais (o primeiro, de 2004), pelo razoável Sentença de Morte (2007) e pelo recente Sobrenatural (2011) – conseguiu fazer um filme de terror acima da média, competente e com várias referências para os fãs do gênero.

Texto de autoria de Cristine Tellier.