[Crítica] Jogos Mortais

Primeiro capítulo do que se tornaria uma enorme saga cinematográfica de terror, Jogos Mortais é um filme conciso e contido, ao contrário de suas variadas continuações. O terror de James Wan começa em um ambiente misterioso e claustrofóbico: um banheiro velho, em que dois desconhecidos estão trancafiados com uma pessoa aparentemente morta no chão. Após um tempo, ambos percebem estar em uma armadilha, proposta por um assassino, de nome Jigsaw. Ambos estariam ali para pagar por seus pecados.

Não demora até a trama se bifurcar, mostrando o presente e um pouco do passado, através das lembranças de Lawrence (Cary Elwes), o doutor que está preso no cenário inicial. Dali começa a se mostrar uma investigação policial, capitaneada pelo detetive David Tepp (Donald Glover) e por seu parceiro Steven Sing (Ken Leung), que estão à caça do tal criminoso, um sujeito que executa suas vítimas em jogos perversos, com frieza total em armadilhas que aproximam as vítimas da morte, tendo uma chance quase sempre ínfima de escapar do infortúnio.

O suspense do longa é maximizado por sua trilha sonora repleta de efeitos eletrônicos, fato que ajudaria a popularizar a utilização em outros tantos produtos cinematográficos de terror, além de ter um tema musical bem característico. Em pouco tempo, o verdadeiro caráter do filme, que é o de provocar angústia em seus espectadores, através do gore auto infligido pelos personagens.

Jigsaw, o mentor por trás desses planos é um sujeito misterioso que tem sua identidade revelada somente ao final. Sua motivação é movida pelo seu destino trágico e todos os seus atos repetem os clichês de gênero slasher, substituindo no entanto o sexo como evento principal da culpa para colocar atos mesquinhos e egoístas como o motivo para escolher quem deve morrer ou viver.

A exploração de Tobin Bell como um homem combalido que se arrasta para basicamente planejar outras tantas armadilhas que fariam suas vítimas se matarem é mais explorada nas continuações, mas já neste se nota uma sobriedade por parte do veterano ator, ainda que seus momentos sejam de absoluto silêncio e relutância, exceto é claro pelas gravações que tem sua voz modificada em efeitos de pós produção. A mistura de enredos diferentes faz tornar ainda maior a importância dos dramas apresentados pela história de Leigh Whannell e Wan, além de valorizar os pouco mais de um milhão de dólares que o filme custou.

Jogos Mortais é um filme repleto de mcguffins, em alguns momentos ele lembra os filmes italianos de tortura, repleto de sangue e mortes criativas, em outros faz lembrar os filmes policiais inspirados pelo caso do assassino do zodíaco – traduzido para o cinema por David Fincher em Zodíaco, curiosamente o mesmo autor de Seven, uma clara inspiração aqui – e os filmes de assassinos em série populares de sua época, como eram Rios Vermelhos, A Cela e Hannibal, ainda que tenha em si uma carga muito mais voltada para o terror do que os citados.

O resultado final é um produto econômico até na sanguinolência, artigo esse não poupado nos capítulos posteriores. A riqueza da inversão de expectativas ao se mostrar que as pessoas por quem o espectador geralmente torce também tem defeitos baseados em pecados capitais combina bem com o moralismo exacerbado do mestre desses jogos, fato que ajuda a tornar toda essa dicotomia em um artigo bastante caro à trama e a exploração dos personagens reais mostrados em tela.

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