Cinema

[Crítica] Kubo e as Cordas Mágicas

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Já desde sua primeira produção, é de se admirar os esforços dos Estúdios Laika em levar até o público animações de narrativa rústicas e sombrias, em contrapontos quase que obrigatórios ao sentimentalismo tocante dos Estúdios Ghibli ou a sempre constante fofura da Pixar. Coraline e o Mundo Secreto já denota de forma explícita o desejo em dar vida às velhas “animações para adultos”, se é que assim pode ser dito, uma vez que os filmes do estúdio são (quase) sempre deveras carregados para o público menor.

E dessa vez ocidentalizando uma história japonesa, Kubo e as Cordas Mágicas, de Travis Knight, mantém o tradicionalismo do stop motion e nos comprova o quanto está técnica ainda carrega tanto para ser dito, independente do quão crua em tela possa parecer. Se o ritmo frenético de aventura de Kubo, aliado às suas constantes tiradas cômicas, pouco lembram alguma produção oriental, é no respeito mitológico e chacoalhar inteligente dos elementos abordados que a animação sobrevive e se firma como um entretenimento para qualquer idade, por mais assustados que os pequenos terminem a projeção.

De um elenco de vozes que reúne Rooney Mara e Matthew McConaughey, passa por Ralph Fiennes e chega em Charlize Theron (e acreditem, o trabalho vocal dos atores está irreconhecível), Kubo e as Cordas Mágicas faz valer o extenso trabalho de produção que a técnica do stop motion trás, algo do qual, inclusive, o estúdio se orgulha ao exibir uma de suas grandes maquetes durante os créditos finais. Auto-suficiência? Poderia ser, se o próprio espírito da obra não denunciasse que, de fato, Kubo é um filme que acredita em sua história bem contada, em seu deslumbramento visual (que não é pouco, basta reparar nas cenas dos origamis) e em seus próprios simbolismos que, amontoados em cima de transparências sutis aos adultos (temas como morte e sacrifício estão fortemente presentes), deverão passar despercebidos aos olhos mirins. Estes se sentirão mais surpresos com a variedade de criaturas que irão passar diante de seus olhos, num trabalho de composição criativo e cheio de imaginação dos designers gráficos da animação.

Como qualquer animação passada no Japão mas feita por uma equipe americana, alguns momentos se rendem a resoluções fáceis e uma necessidade de introduzir o máximo de pequenas reviravoltas possíveis para extasiar o público. Kubo não precisa disso, e deixando essa pequena pretensão de lado, Kubo e as Cordas Mágicas representa o que há de mais rico na animação e suas possibilidades de hoje em dia, nem que pra isso seja necessário adotar esta técnica que garante poucos retornos financeiros, é verdade, mas abre as portas da imaginação. E Kubo é isso, um filme imaginativo.

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Texto de autoria de Rafael W. Oliveira.

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