[Crítica] Latitudes

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Viver dentro de um relacionamento amoroso é, normalmente, algo complicado, seja pelos altos e baixos comuns à gangorra emocional inerente à vida ou às dificuldades em conviver com as diferenças. Latitudes, segundo filme longa-metragem de Felipe Braga, foca em Olívia e José, que são vividos – intensamente – por Alice Braga e Daniel de Oliveira, personagens que têm a única chance de suas vidas de contar uma história realmente interessante.

A trajetória dos dois é mostrada através de encontros casuais, sendo o primeiro deles em Paris, quando José age como um perfeito cavalheiro, acompanhando a dama que parecia ébria, até o hotel onde ela estava hospedada. Na intimidade, eles trocam carícias e credenciais pós-coito, uma vez que jamais haviam se visto, e decidem se encontrar novamente, para compreender melhor qual era a real química entre os dois.

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À medida que o roteiro avança, aumenta também o nível da discussão entre eles. Ao mudar de cidade, José e Olivia acabam se encontrando novamente, e a cada paragem, há mais um degrau percorrido na ligação. Quando se encontram em Londres isso fica ainda mais claro, quando discutem se vale a pena continuarem a se ver, ainda que as cenas intercaladas possam contradizer a fala dita pela mulher. O homem, apesar de se resguardar, deixa transparecer em seu rosto a vontade de que aquilo não termine, já que tudo aquilo se configura como um fruto proibido, e a volúpia o move para frente, para querer mais.

Ao passear em uma das gôndolas de Veneza, José demonstra ter um olhar espaçado e voltado para o nada, refletindo e, ao mesmo tempo, olhando-se internamente, analisando a vaziez e a completude de sua própria vida. Uma vez em terra firme, ele vai em direção àquela que o faz sentir a plenitude do seu espírito. Os momentos em que o casal trava as conversas mais inspiradas são os que ocorrem após suas relações carnais, onde o medo da intimidade inexiste.

Longe da civilização e longe de suas casas, acontece a primeira discussão entre eles, devido a um gesto inofensivo. É o estopim para que ambos comecem a transparecer a miséria emocional em que estão inseridos em suas vidas normais, deixando que isso resvale naquela ligação emocional e carnal que não compreende uma relação verdadeira.

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Pela primeira vez dentro da fita, a lente chega em solo brasileiro. Em São Paulo, há uma demonstração de como é a vida de José, fundamentada no mundo real, onde finalmente revela a sua cônjuge o que acontece nos intervalos entre um voo e outro, durante seus muitos trabalhos de fotógrafo. O destino dele se completa, já que a relação primária do filme é a dele com Olívia. As poucos, os dois universos, que antes eram separados por eras e eras de distância emocional, começam a colidir e a se misturar. José é corajoso em se revelar, em mostrar seus sentimentos, ainda que essa coragem possa ser facilmente confundida, ou associada, com impulsividade.

Após mergulhar na vida do moço, a intimidade de Olívia é mostrada, com seus escrúpulos sendo justificados por ter outras situações semelhantes às que tem com José. Os diálogos inspirados resumem toda a estafa e confusão da psiquê da mulher, que não consegue dar vazão a sua própria vontade, ao menos não de modo pleno ou de maneira boa o suficiente para os seus próprios desejos. Apesar de negar com todas as suas forças, Olívia não consegue fugir de si mesma, da vontade de pertencer e de ter a posse de uma pessoa.

Após alguns atritos, as duas partes se aceitam e começam a se conhecer de verdade, pulando de encontro em encontro, muito longe da realidade de estarem juntos. José é para Olívia o que ela é para ele, um oásis, a calmaria que curiosamente sobrevive à aridez do cotidiano, o paraíso em meio a uma existência desértica, insossa e sem sentido, o bom motivo que ambos têm para continuarem vivos, e talvez, o único momento em quem ambos podem ser sinceros, verdadeiros, sem qualquer característica hipócrita ou máscaras, onde somente as almas e os corpos nus prevalecem.