Crítica | Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia

Hector Babenco não era um gênio, mas era grande. O cara sabia fazer bons e ótimos filmes sobre um Brasil que muitos brasileiros não entendem, e nada como uma visão estrangeira, por bem argentina, para desvendar certas dinâmicas nacionais que nós já banalizamos, ao longo das gerações. Ironicamente quanto a falta de tino comercial de vários cineastas do país, que ainda parecem fazer filmes extremamente autorais e que não conseguem e não desejam atingir o grande público, Babenco parecia ter a receita para extrair uma plena riqueza de interesses e uma certa mitologia latino-americana de situações e paisagens tipicamente brazucas, como de fato encena do começo ao fim no seu elogiadíssimo Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia, segundo (e divertido) trabalho de carreira.

Mesmo sendo de 1977, o realismo do filme (presente na 78º posição na lista dos 100 melhores filmes brasileiros segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema [Abraccine]) expressa com grande trabalho de câmera e sofisticação narrativa a década de 60, no auge da carreira criminosa de Lúcio (Reginaldo Faria) quando o bandido liderava os seus assaltantes de banco e nem por isso deixava os outros fazerem seu próprio serviço sujo. Cruel e destemido, o cara não poupava ninguém, aterrorizando a população de uma forma muito mais ampla e violenta que o bandido da luz vermelha jamais conseguiu, caseiro como só.

No caso de Lúcio Flávio, o desejo de se tornar um bem-sucedido inimigo público é explícito, inteligente nos seus planos e nas suas fugas bem planejadas, ainda que sádico em todas as suas abordagens nos roubos bancários que tanto arquitetou em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sendo assim, o marginal virou uma lenda na mídia sensacionalista, e uma verdadeira peste a ser exterminada pelas “autoridades”. Babenco traça esse cenário da bandidagem nacional como se fosse uma extensão, ou um retrato urbanizado (e motorizado) do cangaço profundo, onde o seu mais famoso protagonista, Lampião, mandava e desmandava por lá em meados dos saudosos anos 20 – este provavelmente o mais famoso fora-da-lei da história do Brasil.

E nesse contexto das grandes capitais onde a polícia samba para manter a ordem, Lúcio apresentou a mesma determinação agressiva que o seu popular compatriota nordestino ostentava, com um grande amor do seu lado, e um fim nada glamoroso às suas trajetórias de prazer e danação, levando inclusive ao aprimoramento das técnicas de caça ao crime do Esquadrão da Morte, uma organização paramilitar criada na época para capturar todos os Lúcios Flávios que assombravam o sistema, cujos vários integrantes policiais foram prontamente denunciados tendo ligação direta com o próprio bandido até a sua difícil captura, em Minas Gerais. Só que até ai, ele e seus comparsas botaram fogo no sudeste brasileiro, tendo suas ações acobertadas por quem dizia-se ser acima das leis.

Mas o que realmente torna Passageiro da Agonia uma aventura marcante afora às páginas da criminalidade brasileira, é a forma como Babenco torna onipresente a tensão que um bandido sente em ser pego a qualquer momento. Podemos sentir a homônima agonia em qualquer segundo de exibição, simbolizada e desdobrada ao longo da trama de uma forma que viria a ser superada em Pixote: A Lei do Mais Fraco, o melhor trabalho do cineasta. Uma angústia famigerada que quando vira ação, ou apenas cultiva-se como suspense ou raro recurso dramático explícito ou não, descarrilha substancialmente para momentos de grande apreço, como na longa sequência dentro do covil de criminosos descamisados, ou ainda no inesquecível clímax “fim de carreira”, quando as fugas aparentemente terminaram, mas o inferno penitenciário aguardava o bandidão.

Entre muito papo e tiro, entre muito sexo e conversa de botequim, Reginaldo Faria incorpora o tal passageiro fatalista com uma impressionante seriedade, fiel a personalidade cínica e terrorista de Flávio, vivendo num eterno ciclo de pressão e tocaia constante, ora torturado em cativeiros com outros dos seus, ora se escondendo dos “tiras” como diziam, tendo sempre que se manter esperto e vigilante – “Se eu mijo nas calças, quem é Lúcio Flávio?!”, pergunta o mesmo para a lenda icônica Grande Otelo, uma das deliciosas participações especiais de um filme que nasceu para ser parte de uma sessão dupla com outro marco do Cinema nacional: Mineirinho – Vivo ou Morto.

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