[Crítica] Maggie: A Transformação

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Após uma miscelânea de zombie exploitation, unida também a ressurreição dos heróis de ação oitentistas via ações como a trilogia Mercenários e filmes mequetrefes como Rota de Fuga, a inevitável mescla de conceitos finalmente ganha contornos reais, ao reunir um ícone do cinema brucutu com os famosos mortes errantes. Maggie tinha tudo para ser mais um subproduto dos dois filões aos quais pertence, mas não é, pois apresenta uma faceta alternativa a simples corrida pela sobrevivência vista em produtos como The Walking Dead.

Arnold Schwarzenegger vive Wade Pace, um pai amoroso e atencioso que encontra sua filha após um choque com os mortos vivos que povoam seu mundo. Maggie, vivida pela bela e singela Abigail Breslin tem seu destino cortado pela contaminação via mordida que sofre, com o diagnóstico claro de transformação. A diferença básica se encontra no cronos, uma vez que sua mudança demora muito mais para ocorrer, fator este que torna o filme de Henry Hobson ainda mais diferenciado, mesmo dos produtos semi-novos de George A. Romero, até por ainda conter alguns pequenos traços de civilização sobrevivendo pelo mundo.

A métrica usada pelo diretor estreante em longas é diferenciada também, sobrando dramaticidade e melancolia em detrimento do gore e da adrenalina em níveis cavalares. O terror de Maggie: A Transformação consiste na inevitabilidade da sina da personagem título e de sua resignada família, que assiste impotente a degradação física e morte lenta de sua herdeira.

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A decomposição lenta e gradual faz sofrer cada um dos personagens, especialmente os que não a estão sofrendo, tendo na entropia uma questão quase tão periclitante quanto a catástrofe da morte anunciada. Mesmo o choque de expectativa é aplacado com o desenrolar da trajetória de Maggie, ajudada é claro pela evolução dramática que acometeu Abigail Breslin, que já dava mostras de um talento ímpar desde Pequena Miss Sunshine. Para que sua persona seja desenvolvida de modo pleno, é absolutamente preponderante o trabalho de Joely Richardson, sabidamente uma boa atriz, e principalmente os esforços de Arnold, que dentro de suas limitações, consegue apresentar um comportamento de pai preocupado e dedicado, estabelecendo bem a regra de ser a base do pilar familiar.

As estrias e varizes se proliferando pela bela pele de Breslin compõem um belo quadro visual, alcançando até questões universais, como a inexorabilidade da morte em detrimento de tudo que um dia foi belo. O acinzamento da epiderme faz grafar esses aspectos ainda mais, relembrando ao espectador e até às personagens que o fim está próximo, e que não há nenhum remédio ou resposta adocicada para o causo.

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À medida que a metamorfose ocorre, aumentam-se os instintos selvagens, em um misto de Tanatomorphose, no quesito transformação corporal, aliado ao descontrole emocional derivado de transformações de caráter, deturpando o que deveria ser o comportamento de uma infanto-adolescente em algo absolutamente selvagem, digno dos filmes B de Ken Russell e David Cronenberg.

A despedida da moça aos seus entes queridos é feita de modo simples, emocional e até óbvio, mas consegue impressionantemente não perder força, lembrando os principais aspectos positivos de Dia dos Mortos amadurecendo o argumento. Na essência, Maggie serve de paralelo com a difícil tarefa que um pai deve exercer ao deixar seus descendentes caminharem por suas próprias pernas, agravado, claro pelo fardo estabelecido por uma questão preponderante, como uma doença terminal, e o filme de Hobson não deixa nada a desejar para nenhum produto desta estirpe, apoiado num texto simplificado, direto e conclusivo, sem apelar para muitos clichês, como era esperado.