Crítica | Mary Poppins

Em 1964, uma época em que Walt Disney ainda dava muitos pitacos nas produções de seu estúdio, chegava as grandes telas o simpático e mágico Mary Poppins, um musical todo focado na figura que dava título ao filme e que era interpretada por Julie Andrews, a mesma que brilhou muito na Broadway mas que ainda não havia feito nenhum filme. A atriz acostumada a produções teatrais havia ganhado notoriedade por fazer a peça My Fair Lady, que ganhou as telas em uma produção da Warner também neste ano, com o nome de Minha Bela Dama no Brasil.

Andrews não fez Minha Bela Dama, no lugar dela escolheram Audrey Hepburne, que quis que o papel recaísse sobre a interprete de Poppins, mas os estúdios temiam que a inexperiência da atriz comprometesse o projeto, e Andrews fez o clássico da Disney, e ganhou o Oscar de melhor atriz. A partir daí foi inventada uma rivalidade entre as duas que claramente jamais existiu, ao contrário, ambas eram bem simpáticas entre si.

O cenário da casa dos Banks, onde se passará boa parte da trama do filme é de certa forma caótico. A dona da casa Winifred (Glynis Johns) tem uma aparência submissa e angelical, mas é claramente uma agitadora, uma feminista, sufragista que quer garantir as mulheres o direito ao voto, e isso por si só na primeira década do século XX já era demais. Alem disso a governanta que já era acostumada com as crianças e com George W. Banks (David Tomlinson) acaba de se demitir, e a família fica de novo em apuros, sem saber quem cuidará dos infantes, mesmo após testarem seis babás em quatro meses.

Durante o filme se veem alguns personagens periféricos tão nonsenses que beiram a fantasia. Os vizinhos dos Banks são marinheiros que dão tiros de canhão toda vez que o marcam uma hora e essa demonstração de poderia e arsenal talvez fosse uma mostra da autora do livro, P L Travers, do quão bobo e elementar pode ser o homem, embora ela claramente não tenha um viés progressista em sua visão de mundo, vide a esposa dos Banks e sua construções. Ainda no campo lúdico, Poppins torna o corriqueiro, o comum como os afazeres de arrumar o quarto em passatempos com músicas e ainda indica algo não recomendável, como inserir açúcar nos remédios que as crianças precisam tomar, aparentemente os anos sessenta eram mais selvagens e ler a bula não era tão usual.

Nem mesmo o aspecto de contos de fadas do filme faz o espectador não perceber o obvio, a família Banks é carente de muitas coisas. George não consegue ser amoroso com ninguém, a mãe é atenciosa, mas também precisa ser ativa politicamente, desse modo ela não pode se ocupar em tempo integral da educação de seus filhos, afinal, como é com o pai, ela também tem seus afazeres e não deixará essa questão de lado, mas incrivelmente o seu lado é bem mais culpabilizado que a de seu esposo, mesmo ela tendo mais contato com as crianças que ele. Já os pequenos Jane e Michael ( Karen Dotrice e Matthew Garber) tentam traçar o perfil de uma babá perfeita para ajudar seu pai, mas tudo o que eles falam é desconsiderado pelo mesmo, tratado como nonsense. Essa falta de diálogo seria solucionada, ainda que tardiamente pela intervenção da protagonista, que teria acesso aos pedidos das crianças, mesmo que as folhas redigidas com as palavras dos filhos tivessem voado.

Depois de Mary assumir seu trabalho, ela passeia com as crianças e encontra seu velho amigo, Bert (Dick Van Dyke) e eles passam a cantar e dançar em meio animações de duas dimensões. Aos poucos, a perfeita babysitter passa a afeiçoar a atenção das crianças e o inverso também ocorre, e tudo isso flui de uma maneira bastante natural.

Lá pelo meio do filme a competência de Poppins é posta a prova, em seu dia de folga as crianças ficam impossíveis de lidar, e não conseguem entender a necessidade que a mulher tem de ter seu espaço e sua folga garantida. Evidentemente que a rebeldia das crianças é super comedida, assim como as lições de moral que seu pai recebe não é super pesada, afinal, são pessoas falhas (e mimadas) mas não são exatamente más.

Proximo de terminar o filme demonstra todo o seu problema com o feminismo. A mãe que começa como sufragista depois muda de ideia , acha toda sua luta uma  loucura, e decide ser ela própria a cuidadora dos filhos enquanto mr banks continua sua rotina. Não há problema nenhum em ela decidir ser do lar, mas o roteiro literalmente debocha da ideologia feminista, mostrando-a como uma fase de ocupação mental de uma mulher rica, tornando tudo isso em mais um evento meio fútil. Isso quase põe toda a magia do clássico abaixo, mas claramente essa mentalidade não tem a ver com a personagem principal.

Mary Poppins é mágica, uma mulher forte e decidida a fazer o que quer. Por mais que a natureza de seu trabalho seja o tradicional relegado as mulheres da época – cuidar de crianças – ela o faz ao seu estilo, sabe seus limites, briga por suas folgas e considera que seus direitos são irrevogáveis, e a forma como ela faz unir os Banks é bem singela e bonita. Seus últimos momentos reproduzem a mágica do começo, embora claramente os adultos da familia não tenham digerido bem tais ensinamentos. Toda a magia presente no filme é muito mérito de Stevenson, que equilibra bem os momentos de tensão e sentimento e principalmente é culpa de Andrews, que une todo o jeito angelical e autoritário em alguns pontos com outros que culminariam na figura de mulher perfeita e memorável que era, sem deixar de ter personalidade e identidade, como muitos dos homens de sua época achavam que as mulheres deveriam ser e agir.

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