Cinema

[Crítica] Memórias de Salinger

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J. D. Salinger é considerado um dos maiores escritores da contemporaneidade, além de figura muito controversa pelos eventos de sua vida pessoal. Autor do sucesso de público e crítica O Apanhador no Campo de Centeio (que vendeu aproximadamente 60 milhões de cópias e influenciou jovens no mundo todo), além de outros contos, Salinger ganhou notoriedade após se recusar a entrar no mundo da fama que seu best-seller lhe garantiu. Desde meados da década de 60 até sua morte, o autor viveu isolado em uma pequena cidade no interior de New Hampshire, EUA, escrevendo somente para si mesmo.

É a partir dessa figura controversa que o filme Memórias de Salinger, de Shane Salerno, baseado na biografia também escrita por Salerno e David Shields, busca mergulhar. O filme inicia-se com uma sequência interessante de um repórter contando a história de como buscou e esperou Salinger dentro da cidade para poder tirar uma foto do recluso autor. A partir daí, se sucedem pequenas inserções de depoimentos de várias personalidades a respeito de como sua obra as influenciou, com destaque para Phillip Seymour Hoffman, Martin Sheen, John Cusack e Edward Norton.

Após traçar um breve histórico da infância do autor, é destacado o potencial que o jovem escritor possuía, e como sua obsessão por ter sido publicado pela conceituada revista New Yorker moldaria parte de sua personalidade. Salinger escreve vários contos, rejeitados pela revista-alvo, mas publicados por outras menores. Porém, quando uma de suas histórias é aceita, os EUA entram na Segunda Guerra Mundial, e as histórias sobre frivolidades cotidianas são deixadas de lado frente a toda a atenção que a guerra iria receber, o que enfurece o autor.

Membro do numeroso grupo de soldados que desembarcou na Normandia no Dia D,  já estava com boa parte da obra O Apanhador no Campo de Centeio pronta e pisou na areia da França portando o que tinha do livro para lhe dar uma motivação maior para viver. Porém, nada de fato o preparou para vivenciar os horrores da guerra quando ele localiza, junto ao exército americano, o campo de concentração de Dachau, vendo pessoalmente as vítimas do holocausto, algo que seria outra fonte de impacto para o autor.

Após voltar da Europa, Salinger publica seu best-seller e obtém fama imediata. Tal sucesso o eleva a um status tamanho na sociedade que acaba por assustá-lo, e por isso decide viver afastado de todas as badalações e falsidades do mundo das celebridades, um ato cuja característica marca seu principal personagem, Holden Caulfield. O filme também aponta a visão de vários amigos e conhecidos de Salinger sobre como seus personagens tinham, para o escritor, significado de pessoas reais, tão ou mais importantes do que as próximas a ele. A preferência geraria enormes conflitos em sua casa, já que Salinger dava mais importância a sua família da ficção, os Glass - tema de outras publicações subsequentes ao Apanhador -, do que a seus filhos e esposa.

Esse foco se apresenta também como o principal problema do filme, que vai deixando de lado, aos poucos, a figura do artista para analisá-lo psicologicamente, porém flertando com uma narrativa similar a de tabloides sensacionalistas, criando muitas vezes no espectador uma certa rejeição a Salinger, algo que um documentário deveria evitar ao máximo. Essas e outras escolhas, também estéticas, deixam o filme com um tom gratuito, inclusive ao se inserir um ator no papel do protagonista em conflito com sua escrita enquanto imagens aparecem em um telão. Um reforço desnecessário para mostrar o que já está estabelecido pela narrativa.

Várias histórias controversas sobre o escritor são revividas: sua preferência por meninas adolescentes e os casos que teve com algumas delas; além da influência de seu maior livro sobre o assassino de John Lennon e o homem que tentou matar Ronald Reagan. Porém, nada no filme é problematizado como deveria. A película enfatiza, a todo momento, que a reclusão de Salinger é mais uma jogada para chamar a atenção por tentar desviá-la do que qualquer outra coisa, fazendo nenhuma outra análise sobre o autor, que não parecia querer se isolar de todo o contato humano, mas somente de algumas pessoas, e são exatamente estas que parecem sempre voltar para atormentá-lo.

O que sobra, então, para o filme é digladiar em cima de sua pouca substância e tentar capturar o espectador nessa aura de mistério com ar sombrio que atrai todos nós. Uma figura como Salinger merecia uma análise mais madura e melhor documentada. Apesar de seu início promissor, Memórias de Salinger acaba descambando para uma investigação sensacionalista, pautada em fotógrafos e pessoas comuns intentando obter algum contato com o escritor, além de utilizar depoimentos direcionados que não fazem jus à complexidade emocional e icônica do protagonista. Todas as histórias polêmicas em torno de Salinger são muito controversas, e por isso era necessário um rigor metodológico maior ao se escolher as fontes e entrevistados, além de seu direcionamento.

Portanto, o que se segue é um documentário que tenta jogar luz em uma figura obscura, mas patina no senso comum da difícil análise. Após tentar manipular o espectador com depoimentos de pessoas que conviveram com Salinger, o filme tenta suavizar o toque ao mostrá-lo em seus dias finais, feliz e tranquilo, algo que a inserção de letreiros com músicas tensas - avisando que há várias obras a serem publicadas e sobre o que elas serão - termina por ir abaixo. Com tal confusão, o espectador mais atento termina de assistir ao filme sem ter informações relevantes o suficiente para formar uma opinião sólida, enquanto aquele, mais facilmente impressionável, pode ser levado a formar uma opinião negativa sobre o biografado, praticamente justificando toda a sua escolha em preferir se isolar do que lidar com o mundo.

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Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.

Ouça nosso podcast sobre O Apanhador no Campo de Centeio.

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