[Crítica] Memórias Secretas

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Associar o novo filme do diretor Atom Egoyan (com roteiro de Benjamin August) ao cultuado thriller de Christopher NolanAmnésia é quase um reflexo do espectador. Em ambos os casos, o protagonista precisa se lembrar todos os dias das tarefas a serem executadas em busca de algo que o complete na missão. Porém, enquanto Leonard faz o tipo durão e jovem, Christopher Plummer entrega Zev Guttman, um frágil senhor beirando os 90 anos com princípio de demência, subvertendo os clichês do thriller de perseguição.

Guttman e seu companheiro de uma casa de repouso, Max Rosenbaum (Martin Landau), são ambos sobreviventes de Auschwitz. Max, um antigo perseguidor de fugitivos nazistas, consegue rastrear um último comandante do campo de concentração, aquele diretamente responsável pela morte de seus familiares. Então incumbe a Zev a tarefa de encontrar e executar o carrasco de seus parentes, já que o oficial está usando o nome de Rudy Kurlander, um prisioneiro morto na Polônia.

Após a morte de sua esposa, Zev sai em busca de seu objetivo, e a excelente interpretação de Plummer nos passa a todo momento a fragilidade de um senhor de tal idade em busca de alguma redenção no final da vida. Enquanto Zev viaja, acompanhamos a busca de seu filho Charles Guttman (Henry Czerny) para tentar encontrar o pai.

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Após rastrear os primeiros Kurlanders, que depois se descobre que não eram quem procuravam, Zev encontra John Kurlander (Dean Norris), o filho de um antigo nazista e saudosista da guerra. O fato de ele e o falecido pai serem nazistas convictos é usado pelo diretor para salientar uma crítica interessante, pois ambos são “colecionadores” de itens nazistas, uma característica de muitos simpatizantes do nacional-socialismo atualmente. A intensa interpretação de Norris como o neonazista John às vezes beira o exagero, mas realiza a função de nos mostrar a dedicação de Guttman em cumprir seu objetivo. Nessa sequência se destaca um dos pontos fortes do filme, a utilização visual e sonora de alegorias aos campos de concentração que sutilmente assustam o protagonista, como alarmes, bombas explodindo em pedreiras, cachorros latindo, dentre outros.

Ao encontrar o último Kurlander da lista, o filme caminha para seu clímax, com Zev, Kurlander e Charles juntos. Porém, a escolha de subverter a trama e transformar Guttman em um algoz e em objeto de sua própria busca, apesar de ser momentaneamente interessante, enfraquece o próprio personagem antes estabelecido. Somos, em alguns segundos, obrigados a acreditar que aquele cidadão que viveu por décadas nos EUA normalmente, e só agora mostra sinais de demência, havia esquecido completamente quem era. Além disso, o personagem atinge a redenção por um caminho bem conhecido do espectador.

Enquanto seu amigo Max Rosenbaum se sente realizado pelo seu ardil em se vingar de dois algozes ao mesmo tempo, o espectador talvez não se sinta da mesma forma. Tamanha construção narrativa poderia ter sido utilizada de forma mais interessante se a subversão pela subversão tivesse sido deixada de lado.

Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.