[Crítica] Menino 23 – Infâncias Perdidas do Brasil

Há um ditado popular que define que a verdade nunca fica escondida para sempre. Talvez a repetição costumeira da expressão faça com que ela perca a força, mas, ainda assim, é uma máxima funcional. Ocultar fatos e, portanto, a verdade é sempre um aspecto mais doloroso do que analisar a realidade sem filtro.

Baseado na tese de Doutorado em Educação de Sidney Aguilar Filho, defendida em 2011, Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil é um documentário que retoma um passado obscuro do país a partir de um fato inusitado. Em uma aula de história de Sidney sobre nazismo, uma aluna aponta que na fazenda da família um pequeno acidente revelou um conjunto de tijolos com a suástica nazista. A partir dessa evidência o autor investiga a história, descobrindo no município de Campina do Monte Alegre uma fazenda de uma poderosa família da região que retirou 50 crianças negras de um orfanato para escraviza-las.

O documentário de Belisário Franca retorna a um Brasil de 1930 apresentando a contextualização mundial e social do país na época. A Bolsa de Nova York havia quebrado no final da década anterior. O país vivia a crise mundial e ainda se readequava tanto a uma nova condução política com o fim da República Velha como ainda sofria para estabilizar socialmente os escravos, alforriados há apenas 42 anos.

Na época, o patriotismo e o nacionalismo se confundiam entre orgulho a pátria e uma ideologia que identificava uma preservação da nação acima de tudo. Seguindo vertentes internacionais, o Brasil foi um dos países a alimentar o movimento nacionalista aliado as teses favoráveis a eugenia, uma busca de uma pureza racial. Em um momento anterior ao domínio de Hitler no poder da Alemanha e de toda a barbárie do Holocausto, a eugenia ainda era vista como um movimento intelectual que foi observado como um ato de modernidade capaz de alinhar a nação a outros grandes países. Campanhas sanitárias e educacionais fomentavam o movimento eugênico brasileiro analisando, por exemplo, a importância da esterilização, da seleção de imigrantes e análises sobre o que seria a verdadeira raça brasileira com teses apontando que a mestiçagem inviabilizaria o país como grande nação.

Dentro desse cenário delicado, a narrativa aponta a história de uma importante família local que adota no Rio de Janeiro um grupo de crianças negras com a falsa pretensão de educa-las. Recebidas em uma fazenda em Campina do Monte Alegre, as crianças vivem em situações precárias, vivendo isoladamente como escravos a serviço da família.

O documentário apresenta a trajetória de dois jovens que sobreviveram ao período e prestam seu depoimento histórico sobre um grupo que nem mesmo possuía nome. Oficialmente adotados pela família, o grupo era tratado por números, bestificados a perder seu próprio nome de batismo. O Menino 23 destacado no título da produção é Aloísio Silva, um dos personagens centrais dessa história. Em um amplo espaço isolado, a fazenda dos Rocha Miranda era um espaço ideal para demonstrar a leniência da lei. O status de representante da elite brasileira na época, garantiu-lhes a facilidade em adotar 50 garotos sem grandes questionamentos.

Trazendo a verdade a tona, a produção revela com fatos informações abrangentes que, ao mesmo tempo, compreendem a época e demostram a violência vivida pelos garotos em uma ação que, independente do pensamento eugênico popular no país, explicitava o racismo que ainda perdura. Ao dar voz aos garotos-sem-nome, o documentário revela o outro lado da história. Elimina qualquer anonimato que mascara o conceito da escravidão, do preconceito e do racismo para apresentar personagens reais que viverem na pele anos de violência física e emocional instituída por uma família de elite, em grande parte apoiadora de teorias estúpidas mas, estranhamente, bem quistas na época.

Os tijolos com a suásticas encontrados por acaso pontuam a muralha que escondeu durante muito tempo a verdade. Uma ação perversa em um período não tão distante do país que funciona como exemplo de um racismo na época, trazido a tona graças a um acaso, nos fazendo questionar quantos mais casos como esse nunca foram revelados e quantos ainda existem em pleno século XXI. Um fato entristecedor de uma realidade que ainda persiste nas diversas desigualdades do Brasil.

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