Crítica | A Montanha dos Sete Abutres

É muito difícil, quiçá impossível, conseguir raciocinar e entender como um filme dessa magnitude pode ser esquecido por muitos nas listas de melhores filmes de todos os tempos. Uma afirmação que se se aproxima do exagero, é porque neste caso, no caso de A Montanha dos Sete Abutres, ainda está longe mesmo assim de compreender a absurda significância e poder de um dos três melhores filmes de Billy Wilder, junto de Se Meu Apartamento Falasse e Pacto de Sangue.

Costumo dizer que há sempre dois personagens que dão o tom na carreira de um ator/atriz, sempre dois, sendo que o resto são reciclagens irregulares de ambos os pontos mais altos de uma vida dedicada a interpretação. Com uma das maiores atrizes italianas, Anna Magnani, o destaque fica por conta da mãe obstinada Maddalena (Belíssima) e a atriz livre, leve e solta Camilla (A Carruagem de Ouro). Já com Marlon Brando, salienta-se o problemático criminoso Terry Malloy (Sindicato de Ladrões) e o mafioso Don Corleone (O Poderoso Chefão).

No caso do também americnao Kirk Douglas, verdadeiro camaleão, destaco o tira machista e obcecado por justiça de Chaga de Amor, o ótimo filme de William Wyler, mas, acima de tudo, o repórter desumano e oportunista (no pior sentido da palavra) Charles Tatum, de A Montanha dos Sete Abutres, num trabalho de composição de personalidade extremamente forte e raro de se ver aonde atuação e todo o resto brilham espantosamente, habitando num uníssono, numa fusão de brilhantismos clássicos e inquestionáveis um seleto hall de excelência onde poucas obras primas de Hollywood ousaram se imaginar chegando perto.

Os maravilhosos truques de câmera por exemplo são outro complemento bem-vindo para mais uma gema dourada em preto-e-branco sobre ambição do cinema de Wilder – nunca suas metáforas visuais foram tão afiadas, nem mesmo em Crepúsculo dos Deuses. Desde o primeiro até o último plano com a câmera quase que engolindo Douglas após sua longa trajetória de desumanização e danação, por conseguinte, o filme é constantemente arrebatado por fatores cinematográficos elevados com rigor de mestre à enésima potência pelo inesquecível diretor, em que se não apresenta aqui o seu melhor e mais inspirador trabalho de direção de Cinema, absolutamente não fica longe disso. Nem sequer indicado ao Oscar foi, sendo grande demais para premiações, afinal.

Até onde chega a ambição e a antiética de um ser-humano no abuso de outros para se chegar a certo patamar, mesmo que esse outro esteja em completa desvantagem (no caso, de vida ou morte) é o que o longa-metragem investiga da mesma forma que O Tesouro de Sierra Madre e mais recentemente Sangue Negro foram bem-sucedidos na tentativa, porém é certo que foi Wilder junto do igualmente seminal Ouro e Ambição, do gênio austríaco Erich von Stroheim, a conjurar o retrato filmado da cobiça que chamamos cinicamente às vezes de ‘instinto de sobrevivência’.

A questão é o que permite a ganância de se perpetuar no espírito humano como um simbionte, e a partir de que momento perde-se a moral para se investir cegamente no sucesso pessoal a qualquer custo. Essas respostas são exclamadas principalmente pela postura de Douglas, o mais perverso dos protagonistas, de fato, numa crítica mais que coerente tanto a sociedade do espetáculo, quanto suas engrenagens midiáticas tão corruptíveis quanto quem as consome, todos nós, e sobretudo, ao lado mais negro da alma humana, usando de um cenário longe dos centros urbanos para enfatizar e explorar, ainda mais, o lado animalesco das verdades sobre as ‘pessoas comuns’.

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