[Crítica] Mulheres do Século XX

O século XX pode ser visto como um dos, talvez o mais denso da história da humanidade. Das grandes guerras e depressão até os direitos civis de negros e mulheres; o direito de ir e vir, o direito de ser. A mudança do entendimento do nosso mundo de vidas em pequenas comunidades, com palpáveis significados, para a solidão de uma percepção para além do que nos cerca, para além das cercas de nossos bairros. É nesse século que o homem pisa na lua, mas não consegue entender seus vizinhos; que as grandes guerras não mais ousarão ser quentes, mas frias e eternas; que o divórcio “sem motivo” nos EUA é liberado, com o estado pioneiro sendo a Califórnia em 1969. É nesse século de eterna crise que viveu Dorothea, desde seu nascimento na crise de 29, passando pela crise dos mísseis e terminando na crise dos 2000, mas sua memória vive até hoje no que Jimmy Carter chamou de crise de confiança.

Mulheres do Século XX é um filme dirigido e escrito por Mike Mills. É baseado na juventude do diretor, mas especialmente em sua mãe. Dorothea (Annette Bening), uma adulta de 50 e poucos anos da Califórnia, se vê obrigada a buscar outras influências para o filho, Jamie (Lucas Jade Zumann), nesse momento de mudança de paradigmas, 1979, e é nas mulheres jovens que habitam sua grande casa em eterna reforma que encontra a solução. Abbie (Greta Gerwig), uma ex-estudante de artes de Nova York que se recupera de câncer, e Julie (Elle Fanning) uma jovem que se declara autodestrutiva e se aproxima muito de Jamie. Além desses personagens, há também William (Billy Crudup), o único homem adulto da casa, que trabalha no eterno conserto do local.

O choque entre gerações se faz de forma bem distinta em relação a tantos outros filmes do tipo. Por ser baseado na mãe e juventude do próprio diretor, há uma presente intimidade e utilização de um denso conjunto de relatos e eventos em nível micro para clarear o que se entende do nível macro de uma época. Essa abordagem beneficia especialmente as personagens, que apresentam um profundo desenvolvimento pessoal. É uma forte base para o que o filme se propõe a tratar, especialmente em relação a gênero, exemplificando com diversos eventos e facetas de vivências que as personagens passam, em assuntos que vão desde maternidade e solidão até sexualidade. E em meio a essas mulheres de personalidades intensas, há um jovem se formando em homem.

“Mas não é preciso um homem para formar um homem?
“Não, eu acho que vocês vão funcionar pra ele”.

A direção e roteiro biográfico de Mills permite que as atrizes encontrem nessas complexidades a humanidade simples e latente, essa característica tão forte que permeia todo o filme. Especialmente Annette Bening, que atua sem melodrama como uma mulher vezes melancólica e vezes extrovertida, alguém viva, e que toma como objetivo a salvação de seu filho de um mundo que se sente descrente, ou como foi traduzido por Jimmy Carter: Podemos ver essa crise na crescente dúvida sobre o significado de nossas vidas e na perda de unidade de propósito para nossa nação.

A apresentação do filme compartilha da energia de seus personagens, com sua direção de arte de cores fortes, mas especialmente sua montagem. Vários momentos se tornam acelerados e com efeitos a lá Koyaanisqatsi, com narrações que trazem uma clara manifestação de memória e reflexão. Dessa forma o filme consegue transmitir toda essa vivência sem se tornar arrastado ou acelerado; simplesmente um fluxo de consciência como alguém que conta sobre uma distante infância a seus filhos.

Mills criou uma obra de amor em memória de sua mãe, assim como a seus valores, e que se posiciona como um entendimento das dificuldades que ela passou e queria evitar que ele passasse. É um filme sobre a aceitação do tempo: o que pode ser profundo e cheio de significado agora, logo se tornará vazio, assim como as vidas que agora são, deixarão de ser. O que Carter chamou de crise de confiança é atualizada hoje como a de autoestima. A segurança dos muros de nossas casas, a distância entre nossas camas e o chão; nada é suficiente para nos proteger do inimigo mais desconhecido: nós mesmos. Você não gosta disso, e nem eu. O que podemos fazer? Primeiro de tudo, devemos encarar a verdade, e então podemos mudar.

Texto de autoria de Leonardo Amaral.