Crítica | Não Me Toque

Vencedor do Urso de Ouro de Berlim em 2018, Não Me Toque é um filme de produção romeno, protagonizado por Laura Benson, que vive uma personagem homônima que tem problemas sérios de relação com qualquer pessoa, não suportando contato físicos mínimos. A historia não trata só dela, mas de um grupo de pessoas excluídas, que tem em comum não só a desolação compartilhada entre todos, mas também um grupo de terapia onde podem pôr para fora e sem qualquer pudor as sensações que pessoas mais conservadoras considerariam complicadas ou vergonhosas.

Um outro personagem que é bastante focado pela câmera, não só da diretora Adina Pintille (como de sua personagem, que documenta todos os depoimentos dos que passam pela tal terapia), é  Tomas (Tómas Lemarquis) um ator massagista que também não tem relações comuns com as pessoas, muito por conta de sua aparência praticamente sem cabelos e pelos, contraída quando ele ainda era muito moço. Ele conhece Christian (Christian Bayerlein) um jovem com dificuldades severas de locomoção, que não consegue se manter de pé e depende de terceiros para qualquer movimentação.

Entre Christian e Tomas há uma relação de interdependência, não só confessional e de divisão de segredos, mas também de compartilhamento de dramas. Ambos se sentem hiper descolados do mundo e não pertencentes ao mesmo planeta que todas as pessoas comuns, e mesmo que Christian não consiga fazer qualquer ação sem auxilio, ele parece bem mais maduro para ter relações que seu amigo, tendo uma namorada e relações sexuais freqüentes.

A jornada de Laura passa por uma terapia que se olhada por leigos, soa chocante, em especial se o espectador for conservador. Para emular as condições de tesão que ela não consegue ter ela paga garotos de programa par se tocarem na sua frente, basicamente para ela assistir alguém tendo prazer e sua expressão de angústia é algo realmente tocante e desolador, claramente ela gostaria de ter acesso a essa que é uma sensação corriqueira para a maioria das pessoas, e o incomodo que a personagem  tem é muito facilmente traduzido em tela, é muito difícil não se solidarizar com sua problemática.

Não Me Toque é um filme sobre problemas com proximidade, e apela para extremos para denunciar o quão doente e problemática é a sociedade nos tempos modernos, e o quão mesquinho pode ser o pensamento humano que exclui as pessoas por conta de aparência física ou por conta do caráter indócil de alguns. O filme contempla e exibe a diferença entre os homens e dá espaço e voz a quem geralmente não tem através de uma terapia de sexo posada e da exposição da intimidade de pessoas que não se enquadram em padrões estéticos egoístas e a forma como Pintille escolha contar a historia é bastante tocante e emocional, surpreendendo a recepção ranzinza que boa parte da crítica teve com o filme.

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