Crítica | Nascido Para Matar

Stanley Kubrick é um dos poucos cineastas que ocupa um lugar unânime entre cinéfilos, críticos e apreciadores em geral do cinema – também entendidos, hoje em dia, como aqueles que assistem algo além de filmes da Disney e as produções originais da Netflix. Kubrick foi um Deus em seu exercício, indo aonde muitos sonharam e quase ninguém reuniu recursos o suficiente para, de fato, alcançar. Várias são os clássicos que o mestre, ganancioso e detalhista como só, galgou a fama e o eterno reconhecimento para qualquer um que repouse o olhar nas cenas de seus filmes, maiores que a tela que se encontram, talvez maiores até que as dimensões do Cinema e a nossa percepção que muda, ao longo das gerações. Seus trabalhos extrapolam o limite da arte. Parecem ser sempre mais, ter algo a mais, a cada revisão, uma vez que o talento de Kubrick fazia jus ao seu gênio tão pretensioso, quanto ambicioso. O espetáculo para ele era um mero detalhe operístico, valia a pena engrandecê-lo, e foi justamente o que ele se prestou a fazer em poucos e extraordinários filmes.

Nascido para Matar vem então a ser seu clássico menos elegante, o que se justifica com a própria proposta do filme, em si. Não há música clássica, nem estilização estética, nem pompa nenhuma que poderia combinar com a loucura e o frenesi e a quase esquizofrenia de um ambiente de guerra: sujo, pervertido e intenso, como a cena em que jovens cadetes militares correm na lama e caem, um por cima do outro, com os braços e bocas abertas a engolir o lodo. Não há boas maneiras que sirvam a isso, e Kubrick sabia exatamente o tratamento que cada história precisa ter para ser inesquecível. A preparação para o filme demorou cinco anos, já que o cineasta se preparava até não poder mais antes de gritar o primeiro “Ação!”. Rodado na Inglaterra, numa recriação perfeita do Vietnã de Apocalypse Now, esse Born to Kill (escrito no capacete do soldado Joker, ao mesmo tempo que um broche com o símbolo da paz está preso no seu colete) não pretende superar o filme de Francis Ford Coppola, indo por outro caminho na sua análise da guerra do Vietnã.

O diretor de Laranja Mecânica estava muito mais interessado em controlar o inferno, do que deixar explodi-lo na tela. Para Kubrick, o controle da narrativa vinha acima de tudo, e não conseguiu despirocar aqui igual seu colega de profissão. Enquanto Coppola foi ao extremo nas filmagens de uma das produções mais problemáticas de Hollywood, Kubrick previa cada um de seus passos, e isso é muito claro, aqui. Dividido em duas partes 100% complementares, Nascido para Matar começa num acampamento de treinamento de soldados de elite, submetidos a uma total pressão psicológica pelo sargento Hartman (aqui vivido pelo ator e militar Ronald Ermey, numa das melhores atuações da filmografia de Kubrick), homem impiedoso e cruel, especialista em espremer pedras até delas sair um litro de leite – lê-se: torturar a mentalidade de rapazes que entram bons moços nas forças armadas, e saem prontos para sobreviver sob quaisquer circunstâncias. A encenação aqui é solta e naturalista, o que diferente muito das outras atuações dos filmes do diretor – tudo meticulosamente bem pensado, em que cada passo da atriz ou ator é ensaiado um milhão de vezes, antes.

Uma violência que é então subvertida pelo segundo ato em que os soldados, já preparados e sobreviventes, se jogam no campo de batalha. Seu impacto e interesse dramáticos agora são inferiores aos do magnífico ato que abre o filme, porém, o jogo e a análise aqui é outra e ação se faz dominar: ao expurgar toda a pressão sofrida e o comportamento já doutrinado pelo que passaram, as zonas de guerra viram um playground aos soldados americanos que encaram tudo como a casa deles; o lar ao qual foram remodelados a pertencer. Toda a insanidade e o sadismo da guerra é exposto, entre vísceras e fogo e balas ricocheteando em um país em ruínas, e logo o Vietnã dos anos 70 se desabrocha num tropicalismo ensandecido, e ultra violento. A ambientação não é charmosa e limpa como em qualquer outra obra-prima de Kubrick, pois o mundo estava sendo lavado pelo caos – e o cineasta, também sábio como poucos, compreendeu isso. Se outros dos seus trabalhos também tem a ver com a guerra, aqui a parada é pé no chão e brutalidade sem filtros para com o espectador. A experiência portanto é forte, um delírio filmado em tom de heavy metal, sendo tudo a favor de uma representação fiel e inteligente aos paradoxos e a alucinação que existem e constituem uma guerra, e grande parte do espírito do homem, afinal.

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