Cinema

[Crítica] Neruda: Fugitivo

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Neruda 1

Manuel Basoalto dá luz à cinebiografia do ativista Pablo Neruda, indo desde a Estocolmo, onde o escritor recebeu o Nobel de Literatura, passando pelos passos do chileno nos andes latino-americanos. Neruda: Fugitivo começa trôpego, com uma narração que resume os ideais e atitudes do personagem-título, mas que também emburrecem o roteiro, igualando-o a uma fotografia do filme, que por sua vez se assemelha a produtos da televisão.

Os fotogramas seguem o sensacionalismo tipicamente folhetinesco, especialmente em relação à tomada de poder de Gonzalez Videla. Sempre que José Secall (intérprete do protagonista) toma a palavra, uma cafona trilha edificante toma a fita para fortificar a ideia de paladino e justiceiro. O que deveria ser um sóbrio discurso do político acaba por se tornar uma risível abordagem parcial, que serve mais para deboche, por parte dos que secularmente seriam opositores de Neruda, do que como glorificação, a qual é toscamente almejada por Basoalto.

As personagens são maniqueístas e passam longe de ter duplicidade, bidimensionalidade ou com nuances em suas falas. O detalhamento da caçada que Neruda sofre, depois de ter seus direitos como senador suspensos, é consagrado por uma obviedade não condizente com a complexidade da história original. O maior equívoco do argumento final é tratar os escritos de Neruda sob um viés de autoajuda, de simples edificação através de palavras e conceitos fáceis. Mesmo a melancolia do autor é mal apontada, pasteurizada para alcançar um público que naturalmente seria pouco afeito ao seu pensamento.

Neruda 2

O complexo e complicado cenário geopolítico da Guerra Fria é reduzido a uma luta do bem contra o mal. A utilização desta tônica revela um anacronismo por parte dos realizadores, e significa quase uma troca de lado, dada a complexidade tanto da obra quando da luta do personagem principal, em nada afeito a divagações moralistas e simplistas.

As melhores cenas, as mais sensíveis e tocantes, são as que não se utilizam de sons, remetendo à infância e à juventude de Pablo. Tempos mais simples, mais fáceis de registrar visualmente, e que, por isso, não irritam tanto quanto os momentos que abordam a política. Possivelmente, ao público que não conhece a obra de Pablo Neruda, o filme fará uma espécie de desserviço, já que transforma toda a jornada do poeta em uma trajetória enfadonha e modorrenta, sem direito sequer a momentos leves de excitação.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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