Crítica | NOVA: Dentro da Mente de Einstein

O documentário NOVA: Dentro da Mente de Einstein (direção de Jamie E. Lochhead, 2015) é um pequeno documentário de 53 minutos dedicado a nos mostrar quem foi o gênio da física, e um das maiores mentes da história da humanidade, Albert Einstein. Apesar de curto, é muito interessante, pois vai nos principais pontos, nas características de maior destaque e nos momentos mais marcantes da vida do gênio.

Já de início é bastante interessante a descrição que é feita a respeito do processo de pensamento de Einstein, seus experimentos mentais. Experimentos simples no sentido de utilização de conteúdos, mas bastante profundos do ponto de vista da abstração que ele realizava; foi assim que ele, dentre outras descobertas, foi capaz de observar que a matéria molda tempo e espaço. Os recursos visuais, no estilo animação, que são utilizados no filmete são muito interessantes, são aplicados de maneira cirúrgica e inteligente. Ao longo do documentário somos expostos a essas construções visuais, o que nos leva a estarmos praticamente dentro do pensamento de Einstein; atente-se ao exemplo da folha de papel amassada com uma formiga andando sobre ela e como esse recurso visual agrega informação no entendimento dos argumentos.

Algo que me chamou muito a atenção foi a afirmação de que Einstein, trabalhando praticamente sozinho, especialmente no início do desenvolvimento da teoria da relatividade geral, foi capaz de fazer formulações tão profundas a respeito do funcionamento do universo. Entendi que os autores e o diretor quiseram demonstrar que o gênio tinha poucos ou nenhum interlocutor, não que ele trabalhava absolutamente sozinho; haja vista ser de amplo conhecimento que nessa fase inicial ele discutia muito suas ideias com sua, não menos genial, primeira esposa Mileva Marić.

O documentário coloca de maneira maneira bastante simples a grande descoberta que o pai da relatividade fez, qual seja: o que se acreditava ser gravidade (a teoria newtoniana) é, na verdade, a contração e a dilatação do espaço e do tempo. Cem anos depois da formulação da teoria da relatividade, só agora nós temos a tecnologia adequada para comprovar grande parte dos resultados dos experimentos mentais de Albert Einstein. Os roteiristas do documentário explanam que as sementes dos pensamentos de Einstein foram plantadas quando ele ainda era uma criança. Explicam o porquê: ele foi uma criança sempre bastante curiosa e persistente. Seu pai, Hermann Einstein, alimentava seu interesse científico, como certa vez em que lhe presenteou com uma bússola. Ainda na infância ele foi fortemente impactado pela série de livros de autoria de Aaron Bernstein, “Livros populares sobre ciência natural”, a qual continha histórias que tratavam de questões como: como seria passar por dentro de um fio elétrico ou viajar pelo espaço.

Os recursos visuais que o documentário utiliza para ilustrar os pensamentos do gênio da física são realmente um ponto alto do material. Quando ele tinha 16 anos de idade realizou um desses seus experimentos mentais, refletindo como seria se ele pudesse enxergar uma onda de luz (ele entendia que era impossível enxergar, mas se ele fosse capaz de se mover na mesma velocidade da luz e, portanto, enxergá-la). As ilustrações realizadas nessa passagem dão um vislumbre para nós do que se passava na cabeça de Einstein ao realizar esses experimentos. Esse experimento mental o fez ficar nervoso a ponto de suas mãos suarem.

Aos 23 anos ele se torna um analista de pedidos de patentes num escritório de registro de patentes na Suíça. Isso tem dois grandes impactos: o primeiro é que ele fica imerso em análises de vários detalhes técnicos, o que, por um lado, provavelmente, alimentou suas reflexões a respeito do funcionamento de muitos detalhes da física; e, por outro lado, também o permitiu ter muito tempo disponível para fazer suas análises e suas reflexões, mesmo quando ainda em horário de trabalho (seu superior fazia “vista grossa” para esses seus “desvios do tempo de trabalho”).

Analisando as teorias de Newton e de Maxwell, o primeiro sobre gravidade e o segundo sobre as ondas de luz, ele pôde perceber uma contradição entre as duas teorias. Elas não conversavam, pois na teoria de Maxwell a luz viajava a uma velocidade constante e na de Newton não. Se pôs a refletir sobre a contradição dessas duas teorias; investindo meses em análises e reflexões, realiza um experimento mental em que há um homem em uma estação de trem e uma mulher passando pela estação em um trem, e dois raios caem simultaneamente, cada um de um dos lados do homem parado na estação, equidistantes dele. O documentário retrata isso de uma maneira muito interessante, constrói em imagens o pensamento de Einstein e, novamente, faz com que nos sintamos dentro do que ele construiu mentalmente. Interessantíssimo saber que a descoberta de Einstein que levou à famosíssima fórmula E=mc2 foi descrita por ele em um artigo que passou praticamente despercebido pelo meio científico, quando publicado.

Quando há o reconhecimento dessa sua descoberta, a teoria da relatividade especial, como a denominou, ele é convidado como professor do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, muito embora dedique a maior parte do seu tempo ao desenvolvimento da sua teoria. No momento de demostrar matematicamente a relatividade geral, ele comete um erro e formula as equações de maneira inadequada. Isso coloca em xeque todos os seus desenvolvimentos até ali. Ele poderia ter desistido de tudo, ter entendido que sua teoria não funcionava. Mas aqui se impôs um dos traços da sua personalidade, foi persistente e continuou se esforçando para encontrar o resultado correto, revendo cada detalhe, buscando descobrir onde tinha errado.

Entra um outro momento super interessante da vida de Einstein, aos 36 anos, com esse erro em suas mãos, precisando rever tudo que houvera desenvolvido para poder confirmar e provar sua teoria, ele está em competição com famoso matemático da época, talvez o maior matemático do seu tempo, David Hilbert; estando extremamente pressionado, precisando provar matematicamente a relatividade antes de Hilbert. Havia sido convocado para um seminário na Academia da Prússia, no qual ia formulando matematicamente sua teoria em frente a platéia e sempre que encontrava erros parava para se corrigir, explicava o que estava errado, o que havia consertado e continuava a partir de tal ponto, sempre sob forte pressão.

A narração do documentário é bastante interessante, chama atenção e nos faz ficar atentos. Adicionalmente, existe uma série de entrevistas com especialistas renomados atualmente em física, que fazem comentários a respeito da vida e da obra de Einstein, o que também é um ponto positivo do obra audiovisual. Mas a trilha sonora é muito ruim, não se encaixa com momentos e com as imagens. As músicas nos momentos de ápice da pesquisa, dos resultados do desenvolvimento de Einstein, quando não sou melancólicos, são agitadas, são de uma certa tensão, de uma forma que definitivamente não casa com o momento descrito nem com as cenas.

O documentário também mostra como depois de alcançar grande sucesso com a teoria da relatividade geral na Europa, tendo o governo alemão passado às mãos dos nazistas e também em função do início da Segunda Guerra, ele, sendo judeu, prefere migrar para os Estados Unidos, assumindo posição de professor e pesquisador em Princeton, onde fica até o final de sua vida. Em determinado momento, a física se volta ao estudo do mundo físico natural, das partículas atômicas; e os desenvolvimentos nessa área são incompatíveis com as ideias de Einstein. Isso o incomoda muito, como houvera lhe incomodado a incompatibilidade das teorias de Newton e Maxwell. Assim, ele tenta forçar a explicação do mundo atômico com base na teoria da relatividade geral, o que é demonstrado cientificamente como um erro, e ele morre insistindo em buscar a explicação do mundo atômico com base em sua teoria. Fica praticamente ignorado nesses seus desenvolvimentos teóricos de final de vida e carreira. Isso nos deixa uma lição extremamente importante: mesmo uma grande teoria, que se demostrou verdadeira na análise dos astros, era incompatível com testes, com experimentos controláveis, experimentos de laboratório para explicar outra parte da realidade.

Einstein foi sem sombra de dúvida um grande gênio. Legou coisas à humanidade que ele mesmo não foi capaz de perceber. Sua teoria sobre o funcionamento do cosmos é muito mais do que física pura. A quantidade de possibilidades de sua aplicação é incomensurável. Precisamos ser gratos a curiosidade e persistência do pequeno Einstein, aos estímulos do seu pai Hermann, aos centros públicos de ciência que o acolheram e o permitiram desenvolver sua ciência (ainda que não se pudesse enxergar seu uso prático e mensurar seu impacto econômico) e aos seus interlocutores ao longo da vida. Essa é uma história que precisa ser continuamente descoberta, contada e recontada.

Texto de autoria de Marcos Pena Júnior.

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