[Crítica] O Albergue

O Albergue 1

Começando a partir da premissa xenofóbica, tipicamente americana, de que o imaginário europeu é repleto de promiscuidade e “livre amor”, O Albergue se inicia exibindo uma futilidade atroz de turistas, que só pensam em maneiras de consumir sexo a qualquer custo. As liberais moças holandesas escondem uma estranha intensão, na verdade uma reprimenda para os bobos que buscam ficar entorpecidos e transar indiscriminadamente.

Mochilando, Paxton (Jay Hernandez) e Josh (Derek Richardson) buscam experiências no período em que estão de férias pela Europa. Apesar da clara diferença de ethos, já que Paxton é aberto a qualquer tipo de relação com mulheres e Josh apresenta uma maior timidez, até por ter recentemente terminado um namoro, ambos só tencionam o escapismo, unidos ao islandês Oli (Eythor Gudjonsson). O roteiro de viagens muda, e eles resolvem ir até a Eslovênia, perto de Bratislava, a fim de encontrar moças de corpos esculturais e que tenham intenção de se incluir em eventuais aventuras sexuais sem compromisso.

No caminho até o famigerado local, o trio se depara com figuras de gostos duvidosos, tendo quase uma premonição do mau agouro que viria. Decidem então se hospedar em um albergue, acompanhados por mulheres desnudas que escondem atrás da volúpia um cenário grotesco, do capitalismo, capaz de tornar infantes em marginais e moças bastante novas em viciadas, que se prostituem por muito pouco.

Após o sumiço  do amigo estrangeiro, e uma visita ao chamado museu da tortura, a dupla de amigos fica preocupada, tentando burramente reunir as pistas que lhe são apresentadas. Um submundo de passatempos turísticos se “apresenta” diante dos olhos vendados e/ou arrancados dos arrogantes americanos, que se acham superiores aos outros homens, um parque de diversões protagonizado pelos que podem pagar para brincar de açougueiros ou cirurgiões.

Os cenários onde ocorrem as cirurgias são cavernosos, onde a sujeira das instalações faz lembrar a imundície da alma dos que lá frequentam, dando vazão à podridão de caráter por meio da glamourização da tortura. O tom do roteiro é sério, apesar de provocar no público algumas gargalhadas involuntárias, e o gore gradativamente aumenta com o desenrolar da trajetória de Paxton. A denúncia vista em O Albergue inclui o prazer quase sexual que os  homens endinheirados tem em provocar agonia, amputamentos e dilacerações em suas vítimas compradas.

Aos poucos, o personagem principal se vê sozinho em uma pátria que não é a sua, lidando com línguas que não entende e com idiomas de dor jamais provados, contextualizados de modo tosco pela atuação fraca de Hernandez, que se debate estranhamente ao ter seus dedos amputados. Apesar das atuações fracas, Roth consegue gerar uma atmosfera de medo e penúria, unidas a um extremo humor negro, que compreende até a tentativa vã do personagem em resgatar seus dois dedos retirados à força, na esperança de conseguir novamente uni-los ao seu debilitado corpo.

O cinema de Eli Roth é muito reverencial, uma bela reimaginação de Evil Dead e A Noite dos Mortos Vivos. Como emCabana do Inferno, O Albergue reconta os melhores pontos de Jogos Mortais, fita do ano anterior, ainda que seu caráter seja muito mais violentamente explícito. As sensações experimentadas vão desde o desprezo pela decadência a que o homem se submete até uma sátira poliglota ao fetiche dos americanos por sangue, que tem em seu âmago a função de açougue e clínica improvisada em closes nas vítimas, que deveriam não ter outra preocupação a não ser as trivialidades cotidianas das instituições de ensino.

Perto de completar 90 minutos de exibição, o filme se entrega ao tom escrachado, não se preocupando mais em fazer sentido em um tom mais sério, apesar de ainda guardar laços com a sanidade mental da estética padrão, tendo no sacrifício de Kana (Jennifer Lim) seu maior indício de acontecimento.

O argumento martela no ideal do espectador a mensagem de que o vilão – escolhido como a figura do estrangeiro – enxerga as suas vítimas como meio de consumo. O discurso de um dos algozes faz ligação direta com isto, reiterando que o homem tem uma distância enorme daquilo que o mesmo ingere. O tom de profecia se torna ainda mais real, quando a presa e o membro da elite trocam seus papéis, através de uma louca inversão de valores anunciada durante e após os créditos do filme, servindo como recurso metalinguístico, uma vez que essa faceta do cinema de terror começaria a adentrar o mainstream do cinema, mantendo a essência dos efeitos práticos de Greg Nicotero, graças a figuras bastante controversas, como Eli Roth, que dedica a sua filmografia a dar eco aos desejos de quem vê na barbárie uma alternativa de prazer.

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