Cinema

[Crítica] O Assassino Em Mim

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Em uma pequena cidade do Texas, em meados dos anos 1950, o sub-xerife Lou Ford está diante de um impasse. Atendendo aos pedidos da população, precisa dar um ultimato a uma moradora que mudou-se recentemente para o local, mesmo que não se sinta motivado para tal. Porém, a preservação dos bons costumes e a manutenção da ordem o obrigam a ir até a casa desta mulher, cuja profissão é deitar com outros homens por dinheiro e prazer, e pedir que saia gentilmente da cidade. O próprio sub-xerife se considera um homem honesto, trabalhador e com poucos vícios mas, ao ver a figura curvilínea de Joyce Lakeland, decide deixar estas qualidades de lado, cedendo a tentação inevitável.

A história de O Assassino em Mim se baseia na obra homônima de Jim Thompson, autor americano reconhecido pela crueza de suas histórias. A trama é apresentada pela própria personagem central em uma narrativa em off que expõe seus conflitos internos. Porém, mais do que um recurso de estilo, cada acontecimento em cena também é filtrado pela visão do xerife, transformando o público em testemunha ocular da visão particular do xerife.

O senso de realidade é manipulado pelo personagem central, dando-nos a impressão de que, a princípio, temos apenas um conflito breve de um homem da lei que se entrega aos desígnios de uma mulher. Somente no desenrolar da ação, conforme adentramos o cotidiano de seus pensamentos, compreendemos a motivação direta de Ford. Um ponto de vista que transforma a brutalidade de pesadas ações violentas em atos comuns, como se a conduta da personagem não estivesse errada ou fosse agressiva.

Diante de tantas obras que acompanham a personagem da lei, Thompson se aprofunda em uma mente obtusa incapaz de reconhecer seu desvio do comportamento normal. Dentro de sua psique, as reações extremas são consideradas naturais e, por consequência, estas impressões são passadas ao público. O choque que recebemos vem da incredulidade, do absurdo e da frieza do sub-xerife ao tratar suas agressões e assassinatos como meras imperfeições de caráter que podem ser corrigidas com força de vontade e um número mínimo de vítima.

Através da personagem, a trama também situa o público no coração americano, em um universo de falsos bons costumes e preconceitos morais enraizados. O ambiente também é responsável pela repressão psicótica que a personagem retinha até então. Por flashbacks que retomam sua infância, observamos que, desde o princípio, havia um desnível em seu caráter que foi expandido após perder laços familiares e não mais conseguir conter a fúria interna.

Interpretado por Casey Affleck, a dose de fúria e sutileza da personagem é bem desenvolvida, demonstrando como o ator é muito mais denso do que seu irmão famoso. O jeito franzino, os traços suaves e a voz um tanto arranhada se modificam quando o seu demônio interno assume e guia-o. O Assassino em Mim é um interessante estudo sobre como funciona a mente desviada a partir de sua própria visão do mundo exterior, uma história que também merece ser lida na narrativa original de Thompson.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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