Crítica | O Castelo de Vidro

Você já teve a oportunidade de assistir o filme Short Term 12? Se não, assista, é um filme de 2013 lindamente escrito e dirigido por Destin Daniel Cretton e entrega uma atuação de Brie Larson superior até do que sua atuação em O Quarto de Jack, que a rendeu o Oscar. Os dois, Destin e Brie, refizeram a parceria no ano passado em O Castelo de Vidro e o resultado não poderia ter sido mais decepcionante.

O filme é baseado no livro escrito por Jeannette Walls (personagem de Larson) e conta sua história real (pode ser encontrado aqui ou aqui). Revezando entre o início da década de 90 e flashbacks de sua infância, acompanhamos Jeannette, suas duas irmãs e um irmão e a relação com seus pais nômades e disfuncionais, a mãe é uma artista frustrada e o pai, grande centro da história, é um alcoólatra.

O longa é mais do que qualquer coisa um filme confuso, enquanto a temática vai se revelando cada vez mais pesada e complexa, o longa faz questão de ir jogando panos quentes e evitando que determinadas vertentes não sejam tão aprofundadas ou tenham o espaço suficiente para serem notadas pelos olhos mais desatentos. Rex, o pai da família e interpretado por Woody Harrelson, é um personagem detestável e esse é o maior gás do filme, são as ações controversas desse pai de família que fazem a história de Jeannette tão interessante, e o próprio ator entendeu isso muito bem e entrega uma das suas maiores atuações da carreira, mas isso acaba sendo invisibilizado pelo melodrama barato que o diretor injeta nessa problemática.

A mãe, que é interpretada por Naomi Watts, não chega nem a ser de fato uma personagem, ela está sempre nos fundos, reagindo ás coisas e soando cada vez mais caricata, até a maquiagem feita em Watts para lhe fazer parecer mais velha é caricata. O trabalho da atriz é o pior de sua carreira e não que isso seja total culpa sua, é clara a falta de interesse que o roteiro tem em tridimensionar a personagem, assim como outros personagens e temas. Ela só não fica atrás do noivo de Jeannete, que além de ser outro personagem caricato, é sem personalidade e protagoniza as cenas mais vergonhosas e desinteressantes do longa.

Assim como Harrelson, a protagonista também entendeu sua personagem mais do que o diretor e entrega bons momentos, mas absurdamente prejudicada pela direção não inspirada de Destin. Direção essa que faz bem em retratar várias fases do espírito norte-americano, é notável o objetivo do cineasta em recriar ideais norte-americanos através das décadas, ainda mais quando se fala em polaridade, mas ele falha quando vai contar a história de seus personagens.

O Castelo de Vidro entretém, pode se relacionar com muitos filhos e pais e até emocionar, mas é o tipo de filme que precisava de um olhar minucioso e responsável, não que o filme não possa ser inspirador ou “bonito”, mas que faça isso de forma coerente, não é te forçando a gostar de um personagem que você acabou de ver deixar os filhos três dias sem comida, ainda mais sem dar mais camadas a ele. Faltou coragem e uma mão firme para contar essa história, o final tenta triunfar ao falar sobre perdão e legado, mas sabe-se que nada disso funciona quando o caminho até ali não foi bem construído. Então repito, se quer ver um bom filme, que trate de temas complexos, perdão e família, deixe este filme de lado e dê uma chance a Short Term 12.

Acompanhe-nos pelo Twitter e Instagram, curta a fanpage Vortex Cultural no Facebook, e participe das discussões no nosso grupo no Facebook.