Cinema

[Crítica] O Ciclo da Vida

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Tratando de uma fase da vida bastante específica, O Ciclo da Vida começa através de um show de mágicas inocente, que entretém os homens e mulheres de idade avançada, graças a ingenuidade muito suscetível nesta fase carente da vida. O lugar onde onde residem os personagens de Zhang Yang, chamada de Casa de Repouso Guanshan tem seu povo composto por uma gama de pessoas de diferentes backgrounds, sem qualquer aplacar de demonstração de suas aparências, rugas e sinais de idade avançada, não glaumourizando e nem retratando de modo coitado essa etapa inexorável a existência humana.

O ponto de diálogo da trama com o espectador é Ge (Huanshan Xu), um sujeito que acabava de sair de sua rotina independente para então adentrar em lugar onde todos os "detentos" são muitissimos subordinados, a mercê da bondade alheia. A sensação de fracasso o envolve, como se sua condição fosse culpa de seus pecados regressos, que o fizeram chegar ao ponto de não ter posse sequer de uma cama própria. Para que a adaptação seja mais rápida, os outros internos constróem um móvel para que ele repouse e possa ao menor dormir no modo mais normativo possível.

O astral dos senhores é normalmente voltado para o alto, indiferente aos fatores físicos de clara decadência, representados pelas rugas, calvícies e pelos membros atrofiados de alguns. Sem explicações prévias, o roteiro apela para um didatismo que demora a se expor por completo, exibindo vagarosamento o drama familiar de Ge e seu filho e neto. Após muito deliberar, o grupo liderado pelo velhor Zou (Tian Ming Wu)  decide fazer a tal viagem sem o consentimento da geração de filhos e netos deles, conseguindo um meio de transporte de uma forma clandestina, o que faz eco com a reaproximação de Ge com seus descendentes, resumindo em si um conto de intolerância e refutar  a um possível legado.

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O caminho percorrido, que serviria de libertação do ambiente prisional do asilo recai em outras questões, especialmentedepois que os filhos e netos interceptam o caminho dos anciões. A jornada deles passa a ser de auto descoberta, invertendo o dito popular de que "cachorro velho não aprende truque novo". A dificuldade que os debilitados tem em executar o simples teatro que se propuseram no início, remete a dificuldade rotineira dos homens de idade avançada de executar mesmo os hábitos corriqueiros do dia a dia, e prova que a vida não pára por estes anos, que ainda há uma enorme gama de sentimentos e experiências que podem e devem ocorrer nessa época, além das claras relfexões a respeito dos erros pretéritos e do azedume comum a esta parcela da idade.

O desfecho e as reverências são voltadas para uma figura, mas servem de alegoria a todos os homens e mulheres idosos, seres de setenta a oitenta e tantos anos, que decidiram não resmungar, e dar vazão aos primórdios e instintos de suas almas, encontrando suas partes artísticas e sentimentais tardiamente, mas há tempo ainda de alcançar seus tentos. Zhang Yang consegue estabelecer uma história simples, tocante, com uma trilha que acompanha os passos de descoberta de seus heróis, sem apelar para um escopo demasiado melodramático, tendo em seu tom um dos pontos mais certos e belos de O Ciclo Da Vida, dando um fim de existência digno para todos os humanos retratados pela câmera.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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