[Crítica] O Estranho Sem Nome

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O Estranho Sem Nome foi o primeiro western dirigido por Clint Eastwood e o segundo em sua carreira, contando com forte influência dos western spaghetti italianos onde o ator se tornou conhecido, contudo, o longa imprime um forte toque autoral e já demonstra o amor do cineasta pela mitologia que envolve os clássicos do gênero, onde o diretor desenvolveria mais vezes ao longo de sua carreira.

O longa se inicia como muitos outros filmes do gênero, o clima árido das pradarias e ao longe surge a figura de Clint Eastwood montado em seu cavalo rumo a cidade de Lago. Ao adentrar no local, todos o olham com um misto de surpresa e medo, já que o sujeito parece não querer boa coisa no local e talvez tenha até mesmo traços familiares para os habitantes daquela cidade. Com pouco tempo, o cavaleiro misterioso mostra a que veio, matando três pistoleiros que cruzam seu caminho e “estupra” uma das moradoras da cidade.

Os moradores da cidade vêem na figura do misterioso paladino a chance de se protegerem de três bandidos recém libertados da prisão que prometeram retornar a cidade de Lago para se vingarem de seus habitantes. Apesar de se mostrar relutante em ajudar os moradores, o pistoleiro acaba concordando em proteger a cidade, desde que cumpram suas duas condições: Que todos os moradores ajudariam a capturar os bandidos e que ele teria crédito ilimitados em todos os estabelecimentos da cidade.

Com base nisso a trama se desenrola, com o protagonista transformando a pequena cidade em um verdadeiro inferno, sem deixar claro quais são as reais motivações do personagem, já que suas atitudes são sempre ambíguas, o que acaba sendo uma das características das personagens do diretor, donos de uma essência misteriosa, de poucas palavras, capazes de se expressarem apenas com olhares. Em O Estranho Sem Nome, Clint traz uma série de arquétipos para distorcê-los no momento seguinte.

O protagonista parece ter repulsa pela maioria dos habitantes da cidade, o que nos causa uma certa estranheza do motivo disso e de qual é sua origem. Isso fica claro com uma cena onde é repetida durante o filme, mostrando um homem sendo chicoteado e morto por três homens na cidade de Lago, onde todos os habitantes da cidade assistem ao massacre e não fazem nada para impedi-lo. O acontecimento é um segredo guardado a sete chaves pelos moradores, e de alguma forma, parece ter ligação direta com o pistoleiro misterioso.

O Estranho Sem Nome é recheado de simbologia; O roteiro da dupla Ernest Tidyman e Dean Reisner é fluido e aborda temas atuais em uma história contada em um passado já remoto; A direção de Clint e a fotografia Bruce Surtess são magníficas e poéticas, retratando toda obscuridade, tristeza, misticismo e até um certo toque pessimista na película. Os enquadramentos lembram o diretor Sergio Leone (o que rende referência ao seu nome e de Don Siegel em uma das lápides do cemitério de Lago) em alguns momentos, em outros dão uma estética sombria e ameaçadora ao personagem, sempre filmando o de baixo pra cima, dando-lhe uma grandeza ainda maior.

Clint Eastwood trouxe um western que foge completamente dos padrões do gênero, soando moderno, ousado, repleto de suspense e que ainda por cima pode ser interpretado sob diversas visões.