Cinema

Crítica | O Gato Fritz

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Ralph Bakshi tem sua história ligada a arte visual de modo muito intenso. Durante os anos 1960 e 1970, ajudou a produzir muitos sucessos animados,  As Novas Aventuras do Super Mouse ou Faísca e Fumaça. Em 1971, coube a si uma responsabilidade atroz: adaptar Robert Crumb para o cinema por meio d'O Gato Fritz, uma produção repleta de dissabores e confusões.

Narrado pelo animal antropomorfo que dá nome ao filme, através de uma estética que emula um pouco do cinema Noir, unido a nova linguagem que despontava por meio da Nova Hollywood que Martin Scorsese, Michael Cimino, Francis Ford Coppola e companhia inauguraram. Fritz é um músico, dono de ar arrogante, e que não suporta a presença da multidão, graças basicamente ao seu gosto mais refinado. Todo o seu comportamento é voltado ao seu processo de sedução junto às mulheres. Essa é a parte  mais espinhosa da cisão entre Bakshi e Crumb, já que o quadrinista julgava que o diretor não havia capturado a essência de suas histórias, e representou toda a questão da libertação sexual e do uso de drogas sob um ponto de vista moralista.

Talvez Bakshi realmente não tivesse ainda a maturidade ideal para lidar com a complexidade do texto de Crumb, ainda assim o trabalho do cineasta é bastante autoral, e sua adaptação não contém um censor propriamente dito, já que nenhum personagem é alheio a loucura de ácido que são os 78 minutos de exibição, até mesmo os policiais, representados por porcos, se sentem seduzidos pela vida desregrada de Fritz e seus amigos.

Não há qualquer crítica negativa cabível ao modo como a América é mostrada, um país com tantas culturas diferentes é naturalmente complexo para não se encaixar somente como um lugar conservador e monótono. Fritz é um passageiro do mundo, de certa forma ele é como Forrest Gump na grande história americana, uma pessoa que passa por diversos eventos, que tem contato com grupos intolerantes e acaba de certa forma participando de eventos de moral duvidosa, mesmo sem concordar com elas. Ele é retratado como fruto do meio, passivo diante da manipulação de discursos, um inconsequente que não percebe seu papel na história. Mesmo com todas as reclamações do autor original da obra, Bakshi consegue trazer um filme digno e que referencia o material de origem, e que apesar de não ser perfeito em sua abordagem, não tem pudor em mostrar uma faceta interessante da América.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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