Crítica | O Último Concerto de Rock

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Era uma noite de quinta-feira. Depois de estudar o dia todo para uma prova, só queria uma dose de Scorsese pra masturbar a mente – depois dos vinte anos, isso começa a fazer sentido. Da filmografia do filho pródigo da periferia violenta de Nova York, como ele conta em detalhes no must-read de Richard Schickel, só me faltava mesmo conferir o que já me tinham apontado como um must-see, sendo que, na verdade, é um must-listen. Todos aqueles músicos, intérpretes ou formadores de opinião, tanto faz: como o artista se atreveu, em plena falsa modéstia, a tocar seu legado, em conjunto, em bando, em pedaços imortalizados em um documental exemplo do que deveria ser todo documentário musical que se preze neste mundo, a fim de causar epifanias e alguns desbravamentos experimentais? Mundo mais de surdos do que de ouvintes… Scorsese tentou retomar o frescor caseiro de intimidade e aproximação interativa, além de closes, entrevistas, quiçá do efeito de planos cênicos no palco do filme, que duram, em geral, mais de dois minutos sem um corte edital, fazendo-o tão mais recompensador – e de contemplação a mil – que o frenesi caótico e apressado de Shine a Light, de 2008.

É cômico, e desolador saber como um filme e um concerto não podem ser cem por cento programados no impacto submetido a cercas qualitativas da porteira do tempo. Fato é que a câmera, levando cada um de nós, voa pelo palco ao lado do clássico grupo (pouco conhecido) The Band, e seus colaboradores lendários do mundo fonográfico, até, enfim, fazer-nos sentir tocando os pratos da bateria junto com Levon Helm. Não vale contar que o músico é recém-falecido desde que seu trabalho nunca será.

O Último Concerto de Rock The Last Waltz, no título original -, como sensação recorrente, mata a curiosidade permanente de quem divaga sobre como é se sentir um rock star sendo um rock star, no lugar onde se nasce para estar. Light é pop porque foi coreografado, foi hiper montado, foi super planejado. Waltz é rock porque é livre, é puro, é bruto. Eu tenho muita inveja dos meus pais: o que importa, afinal, ter nascido no pós-guerra, com o mundo tendo que engatinhar de novo, se na efervescência da adolescência eu poderia ligar o rádio e ouvir o novo hit de Muddy Watter, Joan Baez, Van Morrison, Joni Mitchell? Se eles tivessem sido mais precoces, pelo menos… Acontece que todo texto que se escreve no papel é mais gostoso, feito música ao vivo, que é sempre melhor que gravada, por melhor que sejam meus fones de ouvido e o teclado do meu PC – e são ótimos, de boa marca e de conservação melhor ainda! Pois The Last Waltz nos transborda adentro num caminho sem volta de efervescência cultural, que é mergulhada no suor que banha guitarras e um violino durante a projeção inteira.

Assistir a grandes filmes e/ou manifestos no monitor de um computador se tornou um fato recorrente – cuja predominância tenta chegar a ser uma experiência – de filmes e/ou manifestos que não deveriam ter audiência senão para serem exibidos na glória de uma sala IMAX. O próximo passo será a venda de hologramas para a Rita Lee cantar nos pés da nossa cama, então. Ou quem mais nós quisermos! E será um sucesso, é claro. Um admirável mundo artístico delivery. Enquanto isso, assistir a Waltz me poupou de ter de criar uma máquina do tempo para ouvir um jovem Bob Dylan cantar Forever Young numa Nova York que não volta mais, mas, que, compreenda, vive para sempre nos acordes de Robbie Robertson, linha de frente da iniciativa de Scorsese.

Me resta confessar que fui me emocionar com Tom Zé e Caetano Veloso, velhos guerreiros, compartilhando do mesmo palco no Ibirapuera, domingo desses. Acho que consegui sentir um átomo emocional, um reles expoente homérico e mínimo, um estalo vibracional da energia que ecoa e se propaga a partir de um palco feito local sagrado – todavia, talvez venha a fazer quem subir nele digno(a) do atributo, será? É provável que sejam ambas as coisas. Só sei que concertos têm luz própria, e de vez em quando o Cinema deixa de ser egoísta e acrescenta sua própria luz a irradiar, por anos-luz a fio, em busca de apreciação. Certamente, é algo pra se acolher.