Crítica | Obrigado Por Fumar

Obrigado por Fumar é um exercício de ironização e despersonalização de um grave problema que mata, em média, mais de 480 mil americanos por ano, segundo institutos de pesquisa dos EUA – no Brasil, o número é de 200 mil óbitos anuais, de acordo com o Inca. Tentando transmitir a mesma jocosidade de um anúncio de hospital que nos informa, com um cigarrinho falante e feliz: “Hoje você me acende, amanhã eu te apago”, Jason Reitman dialoga a contradição que habita um exemplar pai de família, que ama seu filho mais que a si próprio, e cuja vida consiste em persuadir todos ao seu redor às garras de um vício tabagista sem volta para muitos – ou melhor, a maioria.

Um aproveitador capitalista nato e incorrigível como também são os grandes economistas e vendedores de hipotecas em tempos de crise, mas há algo de mais perverso ainda quando se vende uma dependência química em troca de sucesso profissional, ou bem-estar com o chefe ignorante. Para Reitman, o cineasta dos americanos comuns, sendo um diretor difícil de imaginar para comandar grandes projetos voltados ao mainstream universal que só dá de comer as bilheterias para ver grandes espetáculos, a ironia está na noção de que a América (e um mundo dominado pela cultura americana) é um grande shopping center, e essa é a única justificativa necessária para se vender de absolutamente tudo, etiquetando também o preço da alma das pessoas; qualquer uma.

Não que a alma dum cara como Nick Taylor vale alguma coisa, ou já tenha valido, sendo ele o porta-voz de uma companhia que conta com sua lábia para administrar mais e mais dependentes bastante lucrativos – um ciclo de carência que só para de render moedas quando a mão no caixão fica imóvel. Para Nick, as pessoas são instrumentos de consumo, em todas as formas aliás, e a vitrine precisa ser sempre irresistível para atrair moscas à luz. O eterno Harvey Dent de O Cavaleiro das Trevas, o ator Aaron Eckhart, encarna com cinismo e hipocrisia propositalmente irritantes um homem que vende a morte, e sabe disso, e nem por isso parece querer alterar o seu caminho um centímetro sequer – na cena do restaurante com Katie Holmes, entendemos bem o porquê.

Forjado em oportunismo e alimentado por uma auto-irreverência que conquista compradores durante o dia, e lindas jornalistas no final da noite, Nick é o típico executivo americano que sabe dos malefícios da Coca-Cola, e mesmo assim vende felicidade ao invés de um líquido preto borbulhante. Não obstante, Jason Reitman reconhece os malefícios que moram em seu país em um único homem branco, resumindo-os com diálogos fracos em uma figura limpa de terno e gravata e que jura ter um coração, mas que só bate por seu filho e olhe lá. Eis um filme então sobre uma grande mentira, mas que não consegue esconder ser outra – Reitman fez dois filmes realmente relevantes no currículo: Juno e Amor sem Escalas, e mesmo assim são títulos que dividem uma boa parte da crítica especializada, e com certa razão.

Pouco expressivo na sua visão, e encenação das suas obras, lembro bem da cara do jovem diretor quando perdeu o Oscar em 2010, ficando à míngua (talvez porque a Academia lembrou dessa paródia boba de O Informante, filmaço de verdade sobre a indústria do tabagismo). Obrigado Por Fumar é vazio, qualificando-se com orgulho como uma comédia de humor negro enquanto se afasta do que realmente importa sobre o tema complicado que satiriza, tentando extrair graça da desgraça mas com pouquíssimo sinal de êxito legítimo. Paga e assume o preço pela seriedade do que tenta tornar divertido, e nada além disso.

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