Crítica | Papai Noel às Avessas

No ano de 2003, chegava aos cinemas um filme de natal que fugia completamente dos tradicionalismos. Produzido pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein e por Joel e Ethan Coen, Papai Noel as Avessas começa mostrando Willie, personagem de Billy Bob Thornton em um pub no final do ano, bebendo com sua roupa de trabalho, o tradicional manto vermelho, fumando e enchendo a cara, para logo depois vomitar na sarjeta. Seu olhar melancólico demonstra o total desânimo com a vida e completa não vocação para trabalhar com crianças.

O filme de Terry Zwigoff tem duas versões, uma mais curta, de menos de 90 minutos e outra que tem quase cem e que possui uma explicativa narração, que vez por outra explicita demais sobre a origem do personagem e quebra um pouco da magia em volta de si. A rotina de Willie inclui ele atender as crianças de maneira impaciente e irônica, enquanto fica bêbado, sendo capaz até de se urinar. Com auxilio do anão Marcus (Tony Cox) que faz um duende com ele, ele espera o shopping fechar para saquear o mesmo.

Ser um saqueador é apenas um dos defeitos do personagem, ele também é anti social, alcoólatra e tem fixação em bundas, não se permitindo ser educado nem um pouco com as mulheres que o rodeiam, incluindo aí as mães que fazem compras no shopping. As cenas extras da versão do diretor são fracas, mostram Willie de férias, ou confraternizando, e isso fere a essência do personagem, que é apenas um personagem ranzinza sem amigos, e o conflito que passa a ter com o pequeno garoto gordinho, que sofre bullying e é interpretado por Brett Kelly.

O menino, que no filme não tem nome – e é chamado só de The Kid – parece ser o único que realmente se importa com ele, ainda que o faça por acreditar que Willie é o verdadeiro Papai Noel, e apesar de no começo a relação dois tenha sido de aproveitamento da parte do adulto, aos poucos o menino faz afeiçoar o beberrão, ao ponto até dele cometer atos graves como ameaçar crianças que maltratavam o rapazinho, chegando a ponto dele até treinar o menino com boxe, para que supere de certa forma o claro atraso mental que tem.

O final do filme é conciliador, e mostra Willie evoluindo de certa forma, não ao ponto de se tornar alguém bom, mas ao menos ele é mostrado como um sujeito que consegue se afeiçoar a alguém que demonstra inocência, basicamente por conta da ingenuidade alheia e conseqüente incapacidade dessa pessoa de não passar-lhe a perna. Papai Noel as Avessas é sacana, mas ainda é comedido no politicamente incorreto, poderia ser mais transgressor, mas especialmente sua versão estendida faz perder boa parte da malandragem e dificuldade de socializar que Willie tem.

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