[Crítica] Para Sempre Alice

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Ao começar a fita de Richard Glatzer e Wash Westmoreland com uma comemoração de aniversário da professora Alice Howland, o intuito é ambientar o público na condição inspiradora da mulher sobre os seus, iniciando por sua família, devota à matriarca, passando pelo ofício da mulher, exibindo-a habilmente em uma palestra diante de uma plateia renomada. A linguística, parte fundamental de seu trabalho, é o tema de seu discurso, atrapalhado levemente por um simples acontecimento, o esquecimento de uma palavra básica, que  – traduzida para o português – seria lexical.

Alice é vivida por uma madura Juliane Moore, tendo em comum com sua personagem o fato de não aparentar ter chegado aos cinquenta anos. Tal fator é importante para a formação da psiquê da professora e mãe, que tem de lidar com as perdas e ganhos familiares, e até com o esquecimento de fatos que lhe causam azedume. Em uma visita à sua filha Lydia (Kristen Stewart), Alice é convidada a pensar mais em si, impondo um desapego aos problemas de sua herdeira, quase como uma premonição de sua condição ainda nem descoberta, a doença tão temida e incurável. Uma relação bastante conturbada, presente no choque de gerações entre Lydia e Alice.

Os testes de memória impingidos à personagem são preconizados por um close-up em Moore, revelando olhos marejados, prontos a desabar em lágrimas, como mais um evento de sensibilidade intuitiva e alarmista, ainda que neste momento nada se acuse. As reuniões familiares em datas especiais prosseguem, mas sempre com a falta de um dos membros, emulando as perdas memoriais que se somam na lembrança de Alice.

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As consultas ao médico vão tomando a forma do medo não dito, e aos poucos ela toma coragem o suficiente para se abrir ao marido, John (Alec Baldwin), que tenta demovê-la da ideia de que as memórias estão realmente se esvaindo, jogando estes fatos no irrelevante ponto da normalidade, associando o problema ao avanço da idade. A resposta imediata da protagonista é chorar e berrar, externalizando todo o grupo de sensações atrozes que se retêm apenas na parte calada do cérebro.

O sentimento de impotência é agravado quando Alice descobre que a condição raríssima é transmitida de forma hereditária, “herdando-a” possivelmente de seu pai – motivo que talvez explicasse a beberrice dele – , o que demonstra a grande possibilidade de transmissão dos genes aos seus descendentes, fato que se consuma. A devastação emocional a faz balançar, e manter-se íntegra e sã é uma tarefa cada vez mais difícil.

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A delicadeza com que a condição é tratada em tela chega a assustar, desde o modo como a adoentada tem de lidar com sua situação imutável até as consequências da revelação, assoladora dentro do seio familiar. A necessidade de mudanças se mostra um exercício árduo para todas as partes, piorado pela sensação da heroína de impotência e de obsolescência não programada. Todo o entorno e as alterações rotineiras são exibidos paulatinamente e na mesma velocidade com que o Mal se alastra pelas sinapses da personagem.

A gradativa perda de articulação faz Alice perder mais que “simples” palavras, pois ela também se distancia de sua identidade, por vezes desaprendendo os valores éticos e morais que sempre regeram sua vida. A lente se embaça. Em mais uma visita à clínica, revelam-se mais perdas, tantas que a consciência da personagem mal é estabelecida.

Alice começa a visitar o HD de seu computador, encontrando mensagens gravadas em vídeo por ela, em momentos pretéritos ao avanço estupendo da doença. Até a possibilidade de suicídio é aventada e contada passo a passo, para que o peso de sua culpa e a dos seus entes queridos pudessem ser aplacados de algum modo. Um gesto pensado de um modo que causaria ainda mais tristeza naqueles que a cercam e da qual cuidam.

A história baseada no livro de Lisa Genova apresenta uma faceta melancólica e singela de uma síndrome tão pouco conhecida pelo homem, fato que por si só causa muito temor em quem a contrai e em quem fica ao redor. A solidariedade, divisão do fardo do sofrimento belamente mostrada na direção de Glatzer e Westmoreland, só é possível pela completa entrega de Moore, que não cansa de se reinventar, tanto como figura sedutora e cativante, quanto no ofício artístico. Para Sempre Alice produz sensações de indignação, comiseração e necessidade de amparo, alertando o público para uma questão aviltante, com muito mais alcance que qualquer panfleto institucional.