Cinema

[Crítica] Paris Pode Esperar

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A história de Paris Pode Esperar se confunde com a de sua realizadora, Eleanor Coppola, que sempre esteve a sombra de seu marido, Francis Ford Coppola. Diane Lane vive Annie Lockwood, uma mulher resignada e que tem suas necessidades e sonhos freados por ser esposa de um homem bem sucedido, no caso, o produtor hollywoodiano Michael Lockwood (interpretado por Alec Baldwin). Indo em direção a uma locação de um filme novo de seu marido, ela decide mudar os rumos de sua vida, dando vazão ao sonho que sempre teve.

O drama de Annie começa a beira da praia de Cannes, A mulher olha para fora e fotografa os detalhes do hotel onde está, enquanto se cônjuge, ao longe faz ligações de negócios, com a voz quase sem nitidez, evocando já nesse início o distanciamento emocional entre ambos mesmo que estejam boa parte do filme juntos. Logo, um auxiliar de Mike se apresenta, o produtor francês Jacques Clément (Arnaud Viar), um homem sedutor e que tem uma moral bem diferenciada dos americanos. Após deliberar, Annie decide ir de carro para Paris, recusando a viagem de jatinho, acompanhada é claro de Jacques.

O roteiro utiliza de pequenos gestos para mostrar a diferença entre os homens, como na questão do remédio para os ouvidos que o amigo dispõe a ela, enquanto a atitude do marido é até de desprezo pelo bem estar do seu par. Esse evento micro faz até justificar a não ida da mulher com seu cônjuge, uma vez que ela se sente incomodada perto deste.O primeiro momento de real sinceridade da heroína da jornada é quando está separada de corpo de seu esposo, onde ela pede encarecidamente que ambos façam uma viagem de férias factual, e não uma saída de negócios como haviam sido os últimos programas.

O filme tem um ligeiro problema de causar desinteresse em seu espectador, uma vez que a persona que Lane interpreta tem uma mania chata de fotografar tudo, desde os momentos oportunos até os pratos que consome, fazendo disso um exercício parecido com os que muitas pessoas fúteis fazem em redes sociais como o Instagram. Possivelmente Eleanor tencionava falar sobre o costume atual de usuários de redes sociais e afins, que perdem boa parte de suas vidas registrando toda e qualquer futilidade, sem propriamente vivê-las e isso de certa forma ocorre com Annie, mesmo que demore a se engrenar essa epifania.

A viagem demorada, causa enfado na personagem principal e no público, sendo desconfortável para quem a faz, ainda que as razões para ambos seja diferente. Enquanto é inconveniente para a protagonista ser galanteada sem ter um sentimento de clara reciprocidade, para o espectador é estranha a sensação de que não se anda com a história, uma vez que quase metade da duração é dedicada a um flerte onde quase nada ocorre. Os 30 minutos finais melhoram consideravelmente o todo, uma vez que tanto Jacques quanto Annie decidem parar de hipocrisia, finalmente demonstrando tudo o que sentem, ainda que tenham algumas amarras orais estabelecidas ali. Paris Pode Esperar acerta até no que poderia ser considerado o seu erro, pois as hesitações dos personagens representam bem a dúvida mental e sentimental de quem está em crise no relacionamento, em especial no que tange o sentimental da mulher.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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