[Crítica] Passion

Passion-Poster

Brian de Palma é um diretor com carreira de sucesso indiscutível. Fruto de uma geração talentosíssima – formada por Scorsese, Coppolla etc –  não filmava desde Guerra sem Cortes. Este Passion é a sua versão para o suspense  Crime D’Amour, do francês Alain Corneau.

Seu começo é lento, lotado de cenas contemplativas nos quartos das suas personagens principais, Christine (Rachel McAdams) e Isabelle (Noomi Rapace). Tais pedaços demonstram alguns dos conflitos que serão futuramente explorados, como a solidão, a luxúria etc.

O roteiro brinca com alguns distúrbios psicológicos sérios, mas vai expondo tudo de forma gradual. Há uma mini-rede de influência entre as personagens principais e outros membros do grupo corporativo onde estas trabalham, em que imperam basicamente a sedução por meio do sexo, posse e poder, além da traição ética e carnal. Aparentemente há um enfoque no Narcisismo por parte de um dos personagens, mas com o desenrolar da história, nota-se que esse é um problema comum a quase todas as pessoas retratadas em cena.

A trilha sonora, assinada por Pino Donaggi – que já trabalhara com o diretor em Carrie, Dublê de Corpo e Vestida para Matar – é sensacional e ajuda a compor o quadro de angústia vivenciado por Isabelle. A pressão psicológica e a agressão à sua auto-estima vão aumentando com o decorrer da película. Mais uma vez De Palma utiliza-se da sua filmagem competente, deixando sua câmera em ângulos tortos em meio a ambientes pouco iluminados, mostrando a instabilidade de seus personagens e o incômodo pelos quais eles passam, sem revelar de forma óbvia quais são as suas intenções, o realizador ainda se apropria de elementos tipicamente hitchcockianos, como Macguffins. O repertório narrativo e visual de Passion lembra em muitos momentos algumas das últimas obras de Hitchcock, como Topázio e Frenesi.

A obsessão é retratada em alguns momentos com uma docilidade ímpar: a admiração torna-se paixão, evolui para fixação, quando se soma a rejeição causa traição, frustração e humilhação. O destino final é a vingança, logo acompanhada de uma reticente confissão. A priori, a história parece ser sobre paixões não correspondidas, mas é muito mais que isso. Há distúrbios de comportamento como stalkers se valendo da tecnologia para praticar chantagens morais e subornos sentimentais entre outras anomalias de comportamento. Não há personagem que não tenha algum interesse escuso.

Com o decorrer do filme, a atuação de Noomi Rapace vai evoluindo, de caricata a bastante realista, o que empresta muito caráter ao lado dramático e misterioso do filme. O final e as reações de Isabelle deixam em aberto algumas questões. Os fatos mostrados na tela podem ter ou não ter ocorrido, total ou parcialmente, é posto em dúvida se alguns dos personagens são ou não reais – o que põe a prova o testemunho da personagem, assim como contesta sua sanidade mental. Um suspense num ritmo clássico, que apela bastante para a sexualidade, mas sem vulgarizar.