[Crítica] A Pele de Vênus

A Pele de Venus - poster br

Passear por campos até então inexplorados é um dos muitos deveres que os grandes artistas devem exercer. O pioneirismo como atitude é algo cada vez mais raro no cinema, mesmo entre os grandes nomes da direção. Talvez esse seja um dos principais valores da filmografia recente do polonês Roman Polanski, que, após a sua controversa proibição de pisar em solo americano, especializou-se em adaptar peças teatrais, como havia feito com Deus da Carnificina, em 2011.

Adaptado da peça de David Ives, que por sua vez usou como base o romance de Leopold von Sacher-Masoch, A Pele de Vênus tem como plot principal uma proposta metalinguística de reunir em uma noite louca o dramaturgo e diretor de teatro Thomas (Mathieu Amalric), que sofre de uma variação de “depressão” que o faz enxergar-se sozinho em meio à tentativa de fazer algo inteligente ao abordar um clássico. Quando está só no teatro, é invadido pela presença da voluptuosa Vanda (Emmanuelle Seigner), que em toda a sua sapiência acredita ser o cast perfeito para o papel principal da peça unicamente por ter o mesmo nome que o do personagem. Após muito insistir – e se insinuar sexualmente – ela consegue convencer Thomas a dar-lhe uma chance de demonstrar seu talento.

Thomas até parece-se fisicamente com Polanski quando mais novo, especialmente por seu biotipo em Dança com Vampiros. Os verborrágicos diálogos tem um cunho tão surreal que levam o humor para um lado nonsense do riso, variando entre o constrangimento alheio e a busca de um objetivo impossível à primeira vista. A inteligência do texto consiste em transitar de momentos cômicos para dramáticos em questão de segundos e ainda assim permanecer crível. Logo no início, nota-se que o dedo do diretor é mais presente nesta produção do que em Deus da Carnificina.

De modo natural, a conversa entre Vanda e Thomas toma um viés mais pessoal, discute a vida pessoal do dramaturgo, e toma polos opostos, como a famosa figura das artes e o ser humano falho, que precisa de coisas tão corriqueiras e universais quanto a busca pelo amor e a fidelidade ao sentimento, pondo como parâmetro a representação da musa e a facilidade com que um selecionador de elenco se disporia em se tratando de acesso ao sexo.

A alma do artista é, em essência, algo inescrutável, difícil de descrever e difícil de entender. O mesmo campo que envolve a criatividade incorre também na vaidade, e manter uma distinta da outra é algo cuja dificuldade é enorme, por vezes até impossível. Por exercer um trabalho solitário, Thomas se sente o mais incompreendido dos homens, e ao menor sinal de um comentário elogioso, ele baixa a guarda e começa a mostrar que os seus temores são muito menores do que o seu talento. Ele facilmente prova a sua boa essência, quase não se esforçando em sua passagem de texto, quando sua capacidade como ator é experienciada. No entanto, sua insegurança ainda existe, quando o sub-texto de sua adaptação é discutido.

O conflito entre os intérpretes excede o paradigma das palavras e é posto em prática por meio da encenação de trechos de A Pele de Vênus, em que as sensações de Thomas são muito testadas pela tentação que se conclui das curvas e da pele de Vanda. O amor enquanto relação carnal é elevada à condição de poder, e as palavras do roteiro se confundem na boca do emissor, não se decidindo entre a relação ser uma demonstração dramatúrgica ou um sussurro de sua conflitante alma.

O distanciamento que Thomas tem de sua cara-metade é tamanho que ele só permite dizer o nome dela após decorridos quase dois terços de exibição. Após isso, uma cena que remete a uma entrevista psicanalítica aos poucos vai se formando, e apesar de a referência não ser de difícil análise, o modo como as peças se movem até chegar ao ponto correto é plenamente cabível, e até mesmo surpreendente.

O último ato serve para ratificar a insegurança do autor ao ver que as suas ideias funcionam muito bem no papel e não tem o mesmo êxito quando ditas pela boca de um ator. As impossibilidades que entravam a relação entre dramaturgo e intérprete ganham novos ares e capítulos de maior contenda, com conflitos que invertem os arquétipos de autoridade e submissão. O modo como o roteiro lida com o discurso de igualdade entre os gêneros é curioso por não ser panfletário em momento algum, pelo contrário, mostra toda a guerra dos sexos de modo prático, sob um pretexto dos mais ardilosos.

A condução que Polanski dá a película não trata só do (ótimo) texto original, uma vez que sua fita é muito fiel ao original de von Sacher-Masoch, sem precisar se ater a fórmula original. A ferramenta metalinguística que David Ives pensou e que foi redesenhada para o filme junto a Roman funciona perfeitamente, inserindo o espectador dentro da trama e convidando quem a assiste a experimentar as mesmas sensações de Thomas e Vanda, sem apelar para clichês como a quebra da quarta parede. Todo o estratagema metafórico é sutil nesta abordagem enquanto é volúvel nas questões “pecaminosas”, fazendo de A Pele de Vênus uma tentação para os sentidos humanos.