Crítica | Praça Paris

Novo filme dirigido por Lucia Murat e roteirizado por Raphael Montes, Praça Paris mira alto ao tentar alcançar o posto de thriller psicológico e viés psicanalítico. Apesar da brincadeira com as palavras, a mistura entre os gêneros não consegue fluir naturalmente, fato que faz o longa carecer de uma identidade própria.

Uma das regras não escritas para realizadores é a de se uma história secundária for melhor e mais rica que o mote principal, a melhor opção seria elevar essa a um patamar de importância maior. Isso parece ter ocorrido com a história que Murat propõe. Há dois núcleos distintos no roteiro, o da psicóloga portuguesa, Camila (Joana de Verona), que atende pacientes na UERJ, e da ascensorista e moradora da favela, Glória (Grace Passô), uma mulher que tem a rotina comum e sofrida, igual a milhões de brasileiros.

Logo, o envolvimento das duas vai se estreitando de maneira natural e orgânica. Ambas quebram protocolos tradicionalmente estabelecidos entre paciente e analista. Totens comuns a tantos pacientes de psicanálise são jogados em tela, como abuso na infância, traumas não-resolvidos e revelados mais a frente, e claro, a crença no não tangível através da religião.

A construção dos cenários urbanos é bem construído, tendo no Rio de Janeiro sob os olhos de Murat uma ótica repleta de veracidade. Os momentos no interior da faculdade estadual, das estações do metrô e das igrejas pentecostais ajudam a estabelecer esse clima de imersão do público.

Ao mesmo tempo em que essas filmagens remetem a um Rio de Janeiro real, o foco em lugares de turismo pequeno tendem mostrar uma cidade para exportação, fato que obviamente casa com todo o ideal de Camila, que é uma mulher que está no Rio basicamente para saciar sua vaidade, preenchendo seu vazio existencial em atitudes pseudo-solidárias. Toda a construção em volta da personagem transborda alienação e futilidade ao ponto dela se achar o centro do mundo e alvo de todo e qualquer bandido carioca, unicamente por ter tido contato com alguém que, supostamente, tem envolvimento com bandidos poderosos.

Os momentos finais resultam na reclamação do primeiro parágrafo, basicamente deixando Glória de lado para explorar as inseguranças infantis da outra personagem. A maior decepção em Praça Paris certamente é ligada ao rumo que as tramas desenrolam, deixando os aspectos mais flagrantes de lado para agradar ao espectador mais conservador e membro da elite carioca.

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