Crítica | Quando as Luzes Se Apagam

imagesSabe quando você tenta apagar aquele borrão na roupa, e acaba sujando mais? Quando as Luzes se Apagam, de David F. Sandberg, também tenta nos assustar, mas tenta tanto que por isso mesmo falha, longe do caráter experimental de um A Bruxa de Blair, o que seria bem-vindo demais aqui; Blair, vale afirmar, sendo o último grande filme de terror americano, brincando com nossas noções de perigo e instintos naturais mais básicos de uma forma realmente autêntica. A psicologia nos diz, e repete a cada sessão que não temos medo do escuro: Receamos o que pode estar escondido lá. A maioria das pessoas, pra não dizer todas teve medo de dormir sozinha, e algumas até pavor quando a única esperança de uma noite tranquila de sono, a luz do corredor, se apaga. Nós evoluímos, mas nossas paúras, não. Em caráter universal, tudo se adapta à região, mas certos gatilhos tão nossos continuam incorruptíveis de geração, à geração: Medo de bruxaria (Suspíria), do demônio (A Noite do Demônio), de fantasmas (Onibaba) ou da solidão (O Iluminado); calafrios tão inevitáveis quanto ódio e amor, iconicamente bem explorados na cadência inesquecível dos títulos mencionados acima, na licença de desenhar aqui uma certa harmonia histórica nos gêneros de horror, terror e suspense mundiais.

Ok, então qual é a desse Quando as Luzes se Apagam, o longa, em pleno 2016, quando a realidade das coisas se mostrou mais aterrorizante que dois Chuckys montados nos ombros do Jason? Fica claro várias coisas (ironicamente) na projeção, mas principalmente uma: Como o terror que invade o ambiente doméstico provoca mais pânico que qualquer outra coisa, um pretexto imortalizado com O Exorcista e, recentemente, no regular O Homem das Trevas; se o horror dos ladrões que invadem a casa do “pobre cego” se constrói na subversão dos acontecimentos (o ceguinho não é tão impotente, como parecia), logo na primeira esquete de clubinho do terror que o filme habita, toda a desculpa que ele usa (e abusa) para nos botar medo é exposta como num dia de sol, e do jeito mais sem graça e vulgar possível, o que é pior. Assim, o filme ocupa o mesmo nível de quase tudo que M. Night Shyamalan fez desde O Sexto Sentido, já que A Visita, ótimo suspense de 2015 promoveu certa esperança.

Subestimar a representação crescente do elemento que aterroriza que habita uma história sem pé, nem cabeça: Pecado mortal num filme mais fraco que a sua premissa – apague as luzes e uma mistura de Samara com Freddy Krueger aparece. Quando as Luzes se Apagam vem, aos trancos e barrancos, repleto de ecos do fantástico cinema de horror sul-coreano, incompatível pela qualidade com o que se faz hoje em Hollywood, arquétipos e esteriótipos que não pregam medo em ninguém, mais, são vomitados na tela sem nenhum preparo, ou cerimônia. Pior ainda é os personagens, perdidos numa atmosfera anti-climática, não acreditarem no começo na entidade que os perturba, mas mesmo assim manifestarem um medo que só se concretiza no final do filme, quando a coisa degringola de vez para uma sucessão deselegante e barulhenta de scare jumps, choro e aparições repentinas no escuro; tudo bem Supercine, ou igual aqueles vídeos com resolução 360p do YouTube. Uma tentativa inválida à beira do nonsense, com cenas que lembram Creepyshow 3, aquele terror meia-boca que só assustava crianças na década de 90. Triste.

A melhor cena do longa oriundo do curta homônimo (e sem-graça) de 2014, surpreendentemente, vem da encenação artificial num microambiente mais parecido com um inferno neon, pontuado assim por objetos que os personagens usam no cenário cheio de manequins e sombras onde, certamente, algo irá no assustar – e assusta, num jumpscare óbvio, mas que nos faz lembrar como adoramos sentir medo, colocar a mãozinha na frente dos olhos e tudo mais… e é por isso que o filme inteiro falha, por ser um conjunto de situações onde sabemos que o pulo na cadeira, ou o grito da mulher é previsível, e portanto, não nos assusta. É como o monstro atrás de você avisar que vai te assustar- inútil, exceto se o monstro for uma ameaça pavorosa mesmo, o que não é o caso aqui, lógico, ou quando o terror é calcado tanto na imagem, quanto no som, afinal nenhum gênero consegue usufruir tão bem da capacidade audiovisual completa do Cinema tal aquele que arrepia a nossa espinha. Lembrou de Babadook, né?