Crítica | RBG

“Eu não peço favores para o meu sexo.Tudo o que peço aos nossos irmãos, é que eles tirem os pés dos nossos pescoços”
(Sara Grimke)

No filme dirigido por Julie Cohen e Betsy West, acompanhamos a história de Ruth Bader Ginsburg, segunda mulher a ocupar uma cadeira na Suprema Corte dos EUA, e consequentemente toda sua trajetória que ficou marcada por uma série de lutas judiciais, quase sempre grifadas por uma insaciável busca pela legitimação da igualdade de gênero.

‘RBG’ trata-se de um apelido dado por uma internauta à juíza, apelido esse que por sua vez foi inspirado no rapper Notorious B.I.G., algo totalmente plausível, visto que Ruth da noite pro dia se viu alçada como ícone da cultura pop norte-americana, sendo frequentemente lembrada em programas televisivos, memes e afins, evidenciada praticamente como uma celebridade, apesar de ser dotada de um caráter íntimo comedido, extremamente paradoxal diante sua fama.

Ginsburg desde a adolescência teve de quebrar paradigmas. Cursou Harvard em uma época onde as mulheres viviam em constante estado de segregação imposto pelo machismo vigente, fator esse que (lógico) acabou desembocando em inimagináveis preconceitos em sua profissão, das mais variadas maneiras e formas possíveis. Traçado esse breve mapa, deixo a cargo do expectador descobrir outros tantos desafios que serão demonstrados ao longo do filme.

Enquanto fórmula, o documentário é bastante formal, seguindo uma linha bastante protocolar, sendo palatável para qualquer público. Expõe contexto de forma bem didática. Narra toda a saga de Ruth Bader Ginsburg desde sua infância, perpassando por sua formação, desembocando no status mítico que a magistrada alcançou; tudo isso sem perder um olhar intimista para com a protagonista. Aliás, é justamente na dinâmica direta de entrevistas com a juíza e seus posicionamentos ideológicos que reside o grande trunfo do projeto. É através do cotidiano, de suas palavras e silêncios que RBG vai demonstrando sua real persona, fazendo assim com que acabemos por conseguir traçar uma lógica semiótica de todo o discurso que moveu sua vida e profissão. O projeto cênico em sua totalidade tem como objetivo principal exaltar os feitos da personagem que dá título ao filme, porém, toda essa narrativa de maneira indissociável traz consigo camadas múltiplas, fidedignas de um tempo e suas mais profundas contradições.

Um dos maiores legados que o escritor tcheco Franz Kafka deixou ao mundo em sua literatura foi sobre a consciência da existência do espírito da lei e a lei fria quando se trata de justiça.

Eis aqui o cerne de RBG.

Sua figura pública é tão fascinante justamente porque sempre buscou lutar por um senso cívico que esteve muito à frente de seu tempo, situada em uma época onde “equidade” para com o gênero feminino era visto como uma mera utopia sem nexo. Por tudo isso e mais um pouco, sem dúvida a biografada merece ter sua história ressaltada e lembrada. Possivelmente, grande parte do público sairá desse documentário encantado com uma mulher tão cativante e indômita. Talvez até cantarolando I’ll Fight, canção tema do documentário. Caso algum leitor se interesse muito pela ministra que segue em atividade na Suprema Corte até hoje, deixo aqui a dica do filme Suprema, estrelado por Felicity Jones, outra obra que também reconstitui e narra os feitos de RBG.

Texto de autoria de Tiago Lopes.

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