Crítica | Réquiem Para Sra J

Réquiem Para Sra J começa quase que em silêncio absoluto, em cenas mudas, acompanhadas por um som instrumental constante, como teclas de piano pressionadas a exaustão, fazendo sempre o mesmíssimo som. Enquanto isso, em uma casa qualquer, há uma mulher limpando sua arma, preparando ela para uso, pondo dentro da sua roupa. Ela é a personagem principal,  Gospodja J – ou Sra. J. – vivida por Mirjana Karanovic, uma chefe de família que está desempregada e sem meios de sustentar sua própria família.

O primeiro longa ficcional de Bojan Vuletic mostra mulheres comuns tendo de lidar com a mudança de paradigma econômico de seu país, a Sérvia, enquanto a vida simplesmente segue, com seus problemas usuais, como a gravidez de uma das filhas da protagonista, a puberdade da outra e as tristezas e dissabores comuns a rotina comum dos humanos.

Vuletic é econômico, em linguagem cinematográfica e em orçamento. Até esse aspecto conversa com o filme e com a situação que o roteiro explora, pois não há muitos floreios ao redor da história, o que se vê é um olhar certeiro sobre uma situação que dependendo do ponto de vista pode ser de calamidade, ou de problemática moderada, basicamente variando segundo o repertório do personagem em questão. Para Gospodja a abordagem é de total falibilidade do Estado e do sistema consigo e com os seus, além de uma enorme letargia, morosidade e descaso dos funcionários que deveriam servir ao povo com a sua situação.

Os ventos barulhentos que passam ao redor da personagem titulo sopram na direção contrária a ela, em mais uma mostra de que a personagem está contra o poder da natureza, na contra mão da corrente que sempre a empurra o lugar mais baixo e para um estado de espírito sem qualquer ânimo. A sensação ao se assistir Réquiem Para Sra J é angustiante, e a intenção dos que realizaram o filme de emular a atmosfera da Sérvia naquele momento, traduzindo bem a sensação de inevitabilidade da morte.

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