Crítica | Roman J. Israel, Esq

O cinema de tribunal é um subgênero que fez muito sucesso nos anos 80 e 90, aliando personagens fortes, tramas complexas, conspirações e um senso de justiça e confiança no sistema que todo mocinho precisa ter para passar a mesma ideia para a plateia. Porém, em tempos mais complexos como hoje, onde as fundações das democracias e suas instituições são cada vez mais colocadas em xeque, talvez essa fórmula não funciona mais desse jeito.

O novo filme do diretor/roteirista Dan Gilroy (responsável pelo excelente O Abutre) Roman J. Israel, Esq. traz Denzel Washington interpretando muito bem um cansado advogado homônimo que deu sua vida inteira para um escritório de luta pelos direitos civis junto de um colega, que falece, e agora sua firma iria ser diluída e incorporada por outra firma tradicional, representada por George Pierce (Colin Farrell), afinal, lutar pelos pobres e negros nos EUA aparentemente não dava dinheiro e a firma estava com déficit.

Porém, o filme não traz para o debate o problema citado no primeiro parágrafo. Aliás, o seu maior problema é que ele parece muitas coisas. Parece que vai abordar a luta judicial pelos direitos civis, ou o cansaço de se dedicar uma vida a isso por parte de quem se propõe a realizar tal tarefa. As vezes parece que vai colocar em confronto as gerações que lutam por direitos civis, ou mesmo confrontar pequenas e honestas firmas contra os grandes escritórios. Ele tenta passar por tudo isso em diversas cenas sem sequência e sem sentido, mas no final tenta abordar unicamente a fragilidade humana através de uma ação do protagonista, que você também espera ter um desenvolvimento maior, mas que não acontece.

Através de uma moralidade rasteira e um roteiro preguiçoso, acompanhamos toda a trajetória de Roman até tentar se adaptar a esse novo mundo, no que também ele ora parece aprender com seus erros, ora parece entrar em uma espiral ainda maior de ações sem sentido.

No final, Roman J. Israel, Esq não entrega absolutamente nada ao espectador além de pequenos surtos de ideias que não são desenvolvidas, com uma tentativa de se colar tudo no final com um grande band-aid narrativo e uma música grandiosa, como se tivéssemos acabado de ver uma grande lição em algo ou alguém, mas o que sobra é um grande ponto de interrogação sobre a história, e especialmente, sobre porque Washington escolheu esse filme.

Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.

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