[Crítica] Sicario: Terra de Ninguém

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O talentoso diretor canadense Denis Villeneuve retorna ao circuito estadunidense após executar seu belo O Homem Duplicado em sua terra, para executar o badalado Sicario: Terra de Ninguém, que explora um drama policial que tem seu protagonista dividido entre uma mulher e um homem latino, o que deveria ser o ponto de partida para uma trama equilibrada em relação às minorias, fato que não ocorre.

O roteiro do iniciante Taylor Sheridan (um ator de series televisivas, como Sons of Anarchy, Veronica Mars e dois spin offs de CSI) explora a história de Kate Macer (Emily Blunt), uma agente do FBI que já no início se vê em uma situação de calamidade, ao encontrar os espólios de um cartel latino violentíssimo, que se escondia nos compartimentos de uma casa entre corpos putrefatos de seus inimigos.

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A trilha sonora, apesar de interessante, acaba por cortar a maior dose dos suspenses que se postam diante de Kate. Gradativamente, novos chamados à aventura são feitos a agente, que deixa sua confortável posição de chefia para acompanhar Alejandro (Benicio Del Toro) e Matt Graver (Josh Brolin). Os dois personagens masculinos exercem uma opressão emocional sobre ela, fazendo ficar ainda mais evidentes os descuidos da moça com a sua aparência, aspecto que serve de signo para o estado depressivo em que ela se encontra.

No entanto, a postura debochada de Graver é completamente diferente do comportamento misterioso de Alejandro, que se enquadra no mesmo estereótipo dos heróis de western spaghetti: homem duro, cujo passado misterioso o credencia para ser o superior em qualquer aventura. Não fosse a entrega de Del Toro, tal repetição de bordão dramatúrgico seria um erro, mas não o é, especialmente se comparado a todo o resto. As motivações das personagens são mal construídas, tão rasas que não possuem credibilidade em qualquer de suas atitudes por serem somente reflexos de um péssimo clichê.

A construção de ideário do que seria Juárez, uma província mexicana onde a violência explícita é a palavra definitiva, esbarra em mais uma retratação xenófoba por parte do script tipicamente hollywoodiano. Até as boas cenas de ação e a bela fotografia de Roger Deakins (que já havia trabalhado com Villeneuve em Os Suspeitos) são diluídas graças à desimportância que ocorre após tantas frases de efeito e repetições de padrões visuais toscos, como gângsteres tatuados, que têm na crueldade seu norte, conceito idêntico ao dos piores seriados policiais dos anos 1990.

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Nem mesmo a mudança tática entre o esquadrão do começo do filme e o novo modo de combate apresentado pelos agentes especiais serve de alento. A tentativa de gerar signos visuais que acarretem em situações de real discussão de ambiguidade esbarra nas péssimas construções de relacionamento, que primam pela insipidez, exceto no caso de Alejandro – exatamente por não se revelar quase nada de seu repertório.

Apesar de tentar mostrar um universo enbrutecido, Sicario peca por não saber escolher entre a vontade de Kate em alcançar a onisciência e o cinismo caricato de Graver e seus homens, ao abordar um mundo sem esperanças. O final assume de vez a má construção do texto, entregando o protagonismo ao único personagem que não está mal justificado em tela, aludindo curiosamente a uma curiosa semelhança deste desfecho com o videogame que dá continuidade aos fatos ocorridos no jogo Scarface: The World is Yours, que punha Tony Montana de novo em ação, ainda que Del Toro seja muito menos histriônico que o traficante cubano. Curioso que um desfecho semelhante ao realizado em outra mídia seja um dos melhores momentos de um filme cujo potencial era imenso, mas que se perde em meio a um argumento descabido e desequilibrado, que torna banais até temas graves.