[Crítica] Superman III

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Muito mais voltado para a comédia, exemplificando pela apresentação de Gus Gorman como mais um vagabundo desempregado vivido por Richard Pryor, a continuação de Richard Lester para Superman III assumiu de vez seu tom jocoso, já iniciado pelo próprio diretor nas cenas finais de confronto em Metrópolis, em Superman II: A Aventura Continua. Tais momentos risíveis são reprisados após a cena de abertura, com uma sequência entrópica de alívios cômicos que fazem desse filme uma sequência mais próxima a Apuros e Trapalhadas de um Herói, também protagonizado por Pryor.

A ausência dos créditos estilizados é sentida, bem como a música de Ken Thorne, que substitui John Williams. Outra mudança sentida é a conveniente saída de Lois Lane (Margot Kidder) de cena, para dar lugar a novos conflitos, eventos esses fracos e sem necessidade. Pela parte do Gorman, há a contratação de seus talentos para o oficio de programador de computadores, em que já na primeira semana ele prova ser genial, conseguindo descobrir uma falha no sistema de pagamento, executando uma fraude a fim de enriquecer em pequena escala.

É nesta encarnação que Alexander Salkind começa a deixar suas funções de produtor, deixando para seu filho Ilya a função de produtor, sendo somente o sujeito que apresenta o filme. A mudança nos roteiros de David e Leslie Newman faz Clark retornar a Pequenópolis para uma reunião de colegiados, onde reencontra sua paixão platônica da adolescência, Lana Lang (Anette O’Toole), que está convenientemente divorciada, como uma mãe solteira. As indiscrições do texto incluem até o uso indiscriminado do super sopro por parte do tímido repórter, a fim de ajudar o filho de sua antiga amada em um jogo de boliche.

O núcleo dos vilões, capitaneado por Rosse Webster (Robert Vaughn mas acostumado a filmes de terror do tipo B) é uma extrapolação do trio de antagonistas capitaneado pelo Luthor de Gene Hackman, ainda que as caricaturas sejam ainda mais evidentes e irritantes. É questão de tempo até notarem a fraude de August, e de – novamente de forma conveniente –  inserir Pryor na cidade pequena também, fazendo-o cruzar o mesmo destino do herói, que gasta seu tempo fazendo piqueniques em meio ao mato alto.

Há mudanças drásticas de cenários, como se todos os personagens tivessem a mesma capacidade de viagem rápida que o azulão. A suspensão de descrença é bastante atacada, com as construções de coberturas geladas ao bel prazer de Webster, bem como a transposição química da kriptonita, facilmente executada por Gorman, sem qualquer ressalva ou necessidade de conhecimento científico.

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Mesmo quando dividem tela, o kriptoniano parece subalterno ao humorista, em uma óbvia declaração sobre de quem é a jornada a ser seguida, apesar do título oficial. As desculpas para mudanças de humor e postura do herói só não são mais vexatórias que as manifestações das Nações Unidas, que votam contra o Superman, exceto a Colômbia, que dever ter percebido que o vigilante não tem cargo eletivo em esfera nenhuma. As piadas seguem ao se tentar subverter de maneira esdrúxula o papel de mulher fatal supostamente burra de Lorelei (Pamela Stephenson), que apesar de seus trajes sumários fala sobre a obra de Immanuel Kant, em um monólogo tão pueril que chamá-lo de argumento acaba por ser superestimado.

Não há motivação válida para Wester e Gorman quererem a derrocada de Superman, nem razão plausível para esse filme ter sido finalizado e lançado ao público. Em tudo que se propõe ele falha, pois não é nem uma aventura escapista interessante, nem uma comédia descompromissada válida, e muito menos um filme épico. As discussões a respeito do petróleo e de como a questão afeta os menos abastados é patética, tanto quanto o drama da Lang, ao ser perseguida pelo inconveniente galanteador Brad Wilson (Gavan O’Herlihy), ainda que nenhum desses aspectos cause mais vergonha do que o escurecimento da paleta de cores do uniforme do Super-Homem e sua barba por fazer, que é a mostra de que sua postura mudou para a de um cara malvado. Nenhum maniqueísmo de época é capaz de suavizar a péssima escolha deste tipo de arquétipo.

A luta mental interna, ocorrida no ferro velho, entre a versão malvada e a tacanha e tímida de Clark Kent exige de Reeve uma atuação mais esmerada, fator que soa como piada ainda maior dada a péssima construção de tensão, diálogos e da arte conceitual. Há até o trabalho da face ruim em retirar com cuidado os óculos do repórter, para logo depois esmagá-los em uma negação de sua própria identidade, que seria interessante em essência, não fosse a imbecilidade de sua condução.

A batalha de mísseis, acompanhada de uma simulação de vídeo game, é tão ruim que basicamente credencia toda a ideia do que viria a ser o quarto capítulo da saga, já longe da chancela da Warner. A ideia da máquina inteligente, com ódio pessoal do Superman, é um deboche terrível da figura de Brainiac, que seria o vilão em uma das versões do roteiro. Os 124 minutos parecem uma eternidade, dada a completa falta de ritmo e carga dramática presente nos eventos contados no longa-metragem.

O embate entre o gênio do humor e um ícone americano retirado dos quadrinhos resulta em um filme sem alma, que faz troça da carreira anterior do personagem no audiovisual e se presta a momentos vexatórios com interferências humorísticas de monumentos estrangeiros, o que, em suma, resume o texto paupérrimo que baseia este Superman III, desnecessário em cada segundo de exibição.