Crítica | Tá Rindo de Quê?

Do trio de diretores Cláudio Manoel, Álvaro Campos e Alê Braga, o documentário Tá Rindo de Quê? tem o objetivo pessoal de mostrar como era a inglória missão dos humoristas e comediantes durante os anos pós-golpe de 1964, no regime civil-militar que se instaurou. Já no  início do filme são mostradas imagens da época, em preto e branco, com frases que variam entre idealistas de direita e de esquerda, tentando achar ali respostas para o povo, sobretudo os trabalhadores, mas a escolha da ordem delas faz um sentido diferente aparecer, o da confusão e a tentativa do longa  em emular a ambiguidade que era transmitida ao povo pela paranoia típica da época, já que o povo não entendia exatamente o que se passava.

Entre os entrevistados estão Juca Chaves, Daniel Filho, Ary Toledo, Boni, Chico Caruso, Eliezer Motta, Bemvindo Sequeira, Agildo Ribeiro, Jaguar, Carmen Siqueira, Fafy Siqueira, e dentre esses há dois que se destacam: Carlos Alberto de Nóbrega, o mais veemente na ojeriza a ditadura, que afirma que a falta de liberdade é assassina, e Roberto Guilherme, que honra o nome de farda que usava como Sargento Pincel e defende que naquele período havia respeito e o sujeito podia andar na rua com ouro que não seria perturbado. Essa última fala grafa bem a ideia maniqueísta e egoísta de que se não ultrapassasse o bem estar pessoal, o cotidiano dos outros pouco importava. Essa alienação do povo era comum, assim como a inquietação de quem vivia de fazer rir, que era evidentemente uma função social realmente subversiva.

Uma boa parte do documentário se dedica a falar de Chico Anysio (e de suas referências, brevemente, como Costinha e Ronald Golias, que era seu ídolo) e o fato dele conseguir tanto sucesso é muito por conta de dois fatores, o primeiro é que Chico City foi inaugurado em 1962, dois anos antes da “revolução” ter ocorrido, com o termo em atenção pela fala de Boni. O segundo era o largo uso de personagens que ele fazia, e isso tornava seu texto impessoal de certa forma.

Em algum ponto, os roteiristas passaram a brincar com os textos e os limites dos censores. Faça Amor, Não Faça Guerra por exemplo era um programa de TV que usava de cacófagos demais para fazer insinuações sobre o caráter do Brasil político e piadas de cunho sexual. Outra discussão era a das mulheres no humor, que tinham seus papéis normalmente reduzidas a tipos e estereótipos, se resumindo basicamente objetos de cena. Para Fafy Siqueira, quem ajudou a modificar isso a força, foi Dercy Gonçalves e isso é largamente reconhecido, pois ela foi inspiração para que inúmeras outras humoristas também pusessem para fora seu desejo de fugir desses estereótipos sexistas.

No final do longa, Henfil (em entrevistas antigas), Caruso e Daniel Filho falam sobre a censura, com o primeiro argumentando que ter seu trabalho revisado e podado não o ajudava em nada, enquanto para Caruso sim – isso demonstra os diferentes modos de criar e fazer humor – mas de certa forma, quando os cortes caíram, muitos sofreram um tipo de bloqueio mental. Para Caruso e Daniel Filho, a situação era tão traumática que mudou até seu modo de lidar com a própria arte. Tá Rindo de Quê? acerta principalmente na questão de ser um retrato bem amplo da época em que estuda, e compensa o fato de ser um documentário um pouco à moda antiga, com linguagem semelhante a televisiva e curadoria de entrevistas com informações bastante ricas, aliado a um ritmo fluido e que faz passar rápido seus 85 minutos de duração.

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