[Crítica] Tanna

É na ilha de Tanna localizada em Vanuatu que se dará a história do representante australiano ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2017. Baseado em fatos reais, o filme dirigido por Bentley Dean e Martin Butler, surpreende ao narrar os fatos através da ótica encenada pelos próprios aborígenes, abolindo com isso o uso de atores profissionais na narrativa.

Logo no início somos apresentados a “Wawa” e “Dain”, dois jovens apaixonados pertencentes da tribo Yakel. Tudo está se desenrolando bem para o casal até que membros da tribo Imedin atacam e ferem o Xamã de sua aldeia, um infeliz acontecimento que mudará por completo o rumo de suas vidas. Procurando menos sangue derramado em vão, um conselho com os líderes das duas tribos é organizado e nesse encontro fica estabelecido pelos anciãos, que através de um casamento arranjado  Wawa deverá se casar com um Imedin, visando  com essa medida que um acordo de paz mútuo seja selado. Através desse conflito e sua intensificação, veremos o amor do casal ser posto à prova, tendo de perseverar e resistir ante os obstáculos, chegando ao extremo de romper com velhos e seculares costumes se necessário.

A obra demora para se aprofundar no desenvolvimento de sua trama, talvez por inicialmente ter de apresentar ao público os costumes e tradições da aldeia e seus moradores. É interessante notar como ambos os diretores investem em planos abertos, demonstrando para o expectador à força da natureza e nesse sentido eles não são nem um pouco econômicos. Os dois realizadores investem em uma total imersão, guiando nosso olhar para uma natureza selvagem e indômita, capaz de assombrar por sua escala e ao mesmo passo encantadora por sua excelência. Valorizando de tudo que dispõe e dono de uma fotografia documental, em certas instâncias o filme toma pra si elementos narrativos bastante interessantes, como quando por exemplo, decide inserir cenas emblemáticas que se dão em um vulcão em plena erupção.

O filme pode gerar estranheza por narrar de forma crua uma realidade pouco explorada cinematograficamente e mesmo assim, é capaz de encantar e instigar. Tanna é praticamente um estudo antropológico em diversos momentos. Uma curiosa e surpreendente obra que exige ser observada através de diversas maneiras e latitudes, seja por almejar eternizar uma cultura tão distinta através de uma representação, ou mesmo pelos debates e levantamentos que suscita através de seu  ponto de vista.

Texto de autoria de Tiago Lopes.