Cinema

[Crítica] A Tartaruga Vermelha

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[…] Descobri a alegria de transformar distâncias em tempo. Um tempo em que aprendi a entender as coisas do mar, a conversar com as grandes ondas e não discutir com o mau tempo. A transformar o medo em respeito, o respeito em confiança. Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer.
- Amyr Klink,   Cem Dias Entre Céu e Mar.

Se o cinema é a verdade 24 quadros por segundo, como declarou Jean Luc Godard certa vez, A Tartaruga Vermelha se revela como poesia há cada 30 milésimos. Não obstante todo o esmero do trabalho, que frame a frame traz consigo à beleza de uma aquarela, o filme delicadamente vai além e acaba por nos presentear com uma experiência ímpar. Vencedora do prêmio especial do Júri na mostra Un Certain Regard, em Cannes 2016, a mais nova produção do Studio Ghibli dirigida pelo holandês Michael Dudok de Wit, é uma obra prima em todos os sentidos possíveis.

No filme, desprovido de diálogos, acompanharemos um náufrago que, perdido em uma ilha verá toda sua vida modificada. Acompanhar os passos do homem solitário à princípio se mostra bastante angustiante. Veremos um homem assustado diante do choque abrupto que rompeu seu laço civilizatório, ter de reaprender a viver e tendo de utilizar com isso muitos de seus instintos mais primitivos, caçando para sobreviver, resistindo de todas formas possíveis aos tormentos da natureza, e assim por diante. Nos pegaremos confusos ao ver uma tartaruga vermelha que tanto lhe acossa no início se transformando em uma mulher. Confusos por não entendermos se essa "transformação" é alguma espécie de mágica que necessariamente se fez real para preencher uma lacuna aberta pelo isolamento da personagem, ou se tudo não passa de uma alucinação de sua mente causada por sua solidão tão pungente. O que fica claro, é o fato que essa misteriosa Tartaruga assumirá uma égide essencial dentro da narrativa que mudará de forma determinante a saga da personagem na história, por vezes de maneira consciente, outras não.

Dentro da obra, fica evidente que o embate homem versus natureza é deixado de lado justamente porquê aqui, ambos estão em comunhão. O tempo e seus ciclos são uma constante na história. Na medida que acompanhamos o náufrago, encarando seus temores, lidando com seu inconformismo, aprendendo com à resiliência, nos sentimos cada vez mais representados, afinal, cada ser é dono de uma ilha só sua, uma espécie de mini-universo complexo e único, que em nossos âmagos, se difere tanto e de tantas formas de outras ilhas e de outros seres.

Por mais difícil que seja fechar certos ciclos, sabemos o quão necessário isso é para viver, pois o tempo é um sábio predador e justamente por conhecer sua força  — capaz de devorar gerações —, vai aos poucos indelevelmente deixando em nós marcas, meio que tentando nôs avisar através de cabelos grisalhos ou ausências, que devemos nos entregar ao mágico e que magia de verdade é estar vivo, mesmo que estejamos sós em uma ilha deserta tendo como única companhia uma tartaruga.

Enfim, só agora ao buscar uma conclusão para tentar descrever meus sentimentos e impressões nessa análise, só agora diante deste texto me dei conta de como o filme pode ser resumido em uma única palavra: Vida.

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Texto de autoria de Tiago Lopes. 

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