Crítica | Touro Indomável

Era tudo, ou nada. Touro Indomável foi filmado com o tesão de um cineasta por uma arte e com a emergência que refletia o período difícil da vida pessoal dos envolvidos nesse filme. Todas as cenas no ringue, a cena da prisão quando Jake La Motta soca a parede do cárcere, tudo evidencia o quase desespero (ou talvez foi isso, mesmo) de Martin Scorsese e Robert De Niro naquele momento de problemas aparentemente insuperáveis. Disso sai um filme desses, por mais irônico que seja: Uma obra-chave que encapsula, ou melhor, resume toda a filmografia de um dos filhos mais prósperos e famosos (seria o mais popular caso a fama de O Poderoso Chefão não tivesse feito Francis Ford Coppola uma grande celebridade) da Nova Hollywood, dos anos 70 e 80.

Enaltecer com a devida paixão e idolatria este diamante lapidado da própria condição da vida dos artistas que o esculpiram é chover no molhado, ainda mais nessa altura do campeonato. Via de regra, tudo gira em torno da realidade não apenas do boxe, suas entranhas e incongruências que podem custar tudo ao lutador, mas da vida de um cara com esposa e irmão na violentíssima Nova York pós-guerra. De acordo com relatos que saíram anos após as filmagens, o primeiro roteiro do filme mostrava coisas bem mais graves sobre esse ambiente e seus impactos em La Motta, sua relação com Joey La Motta (Joe Pesci, inesquecível) e muitas outras polêmicas que talvez iriam desequilibrar nossa relação com o filme, como por exemplo uma faceta mais tranquila do boxeador.

Devido aos caos populacional, migratório e financeiro da época, a Big Apple era uma selva urbana sedutora aos ambiciosos onde a luta pela sobrevivência dos seus cidadãos era de fato tão grande que chega a explicar parte da gana inconsequente e até imatura de La Motta perante o seu caminho e diante de quem lhe apoia e/ou enfrenta (na grande atuação de De Niro). Um verdadeiro titã tão agressivo com os seus oponentes profissionais, e pessoais. Com extrema dificuldade de controlar seus demônios interiores, tal qual todos do seu turbulento círculo social, o lutador tem uma vida imprevisível onde não vê futuro para si longe daqueles inúmeros embates que realiza dentro, ou fora do ringue, numa guerra existencial de um homem segundamente contra tudo, e primeiramente contra o seu próprio Eu.

Com uma trama intensa dessas, Scorsese sabia que teria de passar por cima dos seus limites como cineasta ainda em ascensão, e que qualquer regra ou fronteira teria de ser eliminada para que Touro Indomável pudesse virar o que acabou virando (apesar de críticas negativas na estreia devido ao forte teor violento) e em sua posteridade histórica, rumo ao seu aniversário de quarenta anos, já. O filme é simplesmente perturbador (“Did you fuck my wife?), deliciosamente trágico e narrativamente ultra genial e divertido, contando com o talento sem igual de Thelma Schoonmaker, a segunda montadora mais premiada de Hollywood por sua sagrada parceria lendária com Scorsese.

Entre flashbacks e visões do tempo presente (remetendo a lógica narrativa de Rashomon do mestre Akira Kurosawa, uma influência essencial aqui), e um incrível trabalho de mixagem sonora nos fazendo vivenciar todo tipo de tensão progressiva, a história de La Motta e seus “amigos” nos é arquitetada de maneira perturbadora, ao mesmo tempo que sublime, entre ganhos e perdas, entre murros e beijos, fúria e romance, nuances de apogeu e derrota sempre no limiar da vida e da morte de um homem comum fazendo o máximo que podia, em toda a situação que não se encontrava, mas enfrentava. Aqui, tudo é uma luta onde o abismo também contempla.

É praticamente impossível imaginar um remake de Touro Indomável que faça jus a sua inadvertida, pontual e genial magnitude. Um dos cem melhores filmes americanos de todos os tempos – facilmente, aliás, como já se percebe desde os fabulosos créditos iniciais. Se é o melhor de Scorsese, ai a discussão é eterna… “Eu coloquei tudo que eu sabia e sentia naquele filme, pensando que seria o fim da minha carreira.”, aponta o diretor. “Acabou sendo o que eu chamo de um jeito kamikaze de fazer filmes… Colocar tudo de si num projeto, esquecer tudo e ir procurar outra coisa pra fazer.”, atestou no ótimo livro Scorsese on Scorsese, da editora britânica Faber & Faber.

Felizmente, nas décadas após o reconhecimento da obra e a sua injustiça no Oscar, o cara conseguiu ainda mais prestígios para inúmeros outros grandes filmes (e algumas derrapadas inevitáveis), mas parece ser de consenso mais popular que outro impacto cultural tão forte assim o diretor de Táxi Driver não se permitiu (ou não conseguiu) projetar, mais. Tampouco precisava, pensando bem, depois de um tour de force bestial com gosto e cheiro inebriantes de Cinema em estado de ebulição perfeccionista, nutrindo sangue, memória e expectativas cinéfilas como poucos outros títulos conseguem, desde então e antes deles. Melhor e melhor a cada revisão, para sempre.

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