Cinema

[Crítica] Trago Comigo

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Trago Comigo

Mistura de mensagem histórica com metalinguagem abrangente e sensível, Trago Comigo de Tata Amaral consegue reunir em si uma essência puramente sentimental e tocante com um estudo profundo de um período que teima em ser esquecido e suprimido da história brasileira. A história narra a trajetória do ex-ator e ex-diretor de teatro Telmo Marinicov (Carlos Alberto Ricelli), um homem cujo passado o perturba e que decide graças ao incentivo de seu amigo Lopes (Giorgino Di Biasi) retomar a reforma de um antigo teatro, onde conduziu algumas peças ao longo de sua carreira.

A necessidade de isolamento emocional é tamanha que Telmo não se permite envolver sequer com sua amante, a jovem e bela Monica (Giorgina Castro), uma jovem atriz que aspira a admiração sentimental e profissional do seu amado e mentor. Após recusar inúmeras oportunidades de retomar a carreira de diretor, e sem um tema definido para montar um novo espetáculo, Telmo vê nas atitudes curiosas e intrusas da moça a possibilidade de recontar a própria história de sua militância, durante a Ditadura Militar, abrindo assim não só sua intimidade para os atores que farão a perfomance, como também tratará de feridas de um passado obscuro, mexendo com as emoções e ideais deles e dos jovens que executam a peça.

Thiago Dottori e Willlem Dias tem um esforço hercúleo para trabalhar o roteiro da mini série que deu origem ao filme, tendo de adequar o formato para algo enxuto e certeiro e o resultado impressiona por ser sucinto e ainda relevante. Há a participação de Lúcia Murat como supervisora do texto, e ainda que seja pequena sua participação nota-se uma grande influência da filmografia da diretora, especialmente por tratar de maneira tão visceral os crimes de tortura e perseguição dos jovens.

Não é preciso apelar para flashbacks, uma vez que os ensaios e construção gradual do script da peça ocorrem relembrando os eventos de ideal, perseguição e amor ocorridos com o grupo de revolucionários e resistentes. Há espaço para um embate de ideias bem diferentes, mostrado principalmente nas discussões protagonizadas por Telmo e por Miguel Jarra (Felipe Rocha) um jovem ator de novela, que não consegue entender o viés e comportamento dos rebeldes, repetindo o terrível lugar comum que assola grande parte da opinião publica brasileira, que difere demais do exemplo da Argentina, Chile e demais países do cone sul que também tiveram governo ditatorial militar, uma vez que não há uma tradição da banalização nestes lugares como é comum no Brasil. A discussão é feita de um modo sereno, sem espaço para ofensas gratuitas ou algo que o valha, ao contrário, é sucinta, madura e condizente com a realidade, mostrando uma recusa inicial de ambas as partes em aceitar o diferente e um consenso que ocorre não só pela arte, mais pelo crescimento mútuo entre diretor e interprete.

A verdade a respeito da captura de Telmo e de sua antiga amada põe o personagem e seus amigos frente a frente, expondo seus medos de terem traído a causa e de ter cometido a injúria de entregar seus próprios camaradas a morte certa. Apesar de negar o tempo inteiro que era subversivo, Telmo acaba por subverter até o caráter de seu novo trabalho, transformando algo que deveria ser unicamente para revelar e exorcizar demônios em uma terapia em conjunto, que visa através da fala e da ação expelir todo o sentimento terrível e incubado que ataca os que sofreram com os maus tratos dos poderosos. Trago Comigo tem uma capacidade singular de ser panfletário, sem medo de levantar bandeiras, sem soar piegas ou datado. É um registro atual e moderno sobre uma época dura e opressora, conseguindo dialogar mesmo com uma plateia pouco afeita ou inteirada em relação a situação sócio política brasileira.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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