Crítica | Um Elefante Sentado Quieto

Filme de Hu Bo, diretor chinês que se suicidou logo após terminar de rodar a obra, Um Elefante Sentado Quieto é um filme sobre  desolação humana e falta de perspectiva, que usa os exemplos de jovens de uma cidade no norte da China, onde jovens tentam viver apesar do egoísmo vigente nessa mesma sociedade.

A historia se passa em uma cidade pequena do norte da China e mostra personagens bem diferentes tendo que lidar com a modernidade que aparentemente afasta as pessoas e as faz agir de maneira muito egoísta. Dois meninos bem jovens são mostrados nesse inicio, o primeiro e Wei Bu (Yuchang Peng), que ao tentar quebrar esse paradigma, empurra um bully que vivia perturbando um amigo seu. As conseqüências desse empurrão são serias e Bu foge com receio das conseqüências, e ele foge, com Wang Jin (Congxi Li) seu vizinho e claro, Huang Lin (Uvin Wang), uma moça próxima dele. A jornada de fuga dos três envolve obviamente uma perseguição, mas o desenrolar dela quebra padrões, não é frenética e seu ritmo é bem cadenciado.

A contemplação do cotidiano é bastante silenciosa, cabe ao elenco passar as emoções e o senso de urgência que o roteiro propõe e esse conjuntos de sensações é muito bem transmitida ao espectador. As quase quatro horas de filme são cortadas por uma montanha russa emocional, que trata do desespero de famílias comuns e pobres por conta das brigas completamente impensadas dos adolescentes, e é difícil julgar quaisquer dos personagens juvenis, já que a violência e agressividade fazem parte do cotidianos dos adolescentes, ao passo também que eles simplesmente não tem maturidade para lidar com tudo isso.

Há outro fator forte nessa equação, que é a rejeição por parte da geração anterior. Mais de um dos personagens são excluídos ou expulsos de casa pelos pais, e não necessariamente por conta da violência que ocorreu na escola. Mais até do que esse renegar da paternidade estabelecida na ordem para sair de casa, há um conjunto de diálogos muito forte, onde normalmente imperam conversas ásperas, onde as pessoas estão quase sempre de costas umas para as outras, raramente conversando com os olhos nos olhos.

Há outros momentos bastante simbólicos nos lugares por onde a câmera de Hu Bo passeia. Na escola onde aconteceu a briga não se dão ao trabalho sequer de limpar o sangue do chão após o incidente, há descaso com o mal que recai sobre a família do rapaz que era bully, assim como boa parte dos personagens adultos se importam demais com o destino de seus cachorros, em detrimento as vezes do sofrimento dessas crianças/adolescentes. O diretor denuncia a falta  de sensibilidade geral e preocupação maior com animais do que com os homens e mulheres.

As conversas no final são muito inspiradas, tanto nos diálogos quanto no domínio de carreira de Hu Bo, que faz um ultra close no primeiro plano e um segundo plano quase desfocado. Mesmo quando Um Elefante Sentado Quieto larga a estética naturalista e apela para o fantástico há muito acertos. Seu desfecho é tocante, aborda temas fortes, como suicídio e auto afirmação dos juvenis via agressividade. É um filme de ciclos, que fala basicamente sobre o mesmo estilo de vida mostrando que a humanidade tende a repetir inclusive seus erros.

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