[Crítica] Um Estado de Liberdade

Se tem um assunto além da segunda guerra mundial que os EUA adoram fazer filmes sobre é a sua Guerra Civil. Durando de 1860 a 1865 entre os confederados e a união, a também chamada Guerra de Secessão forjou violentamente o caráter industrial do Norte do novo país, assim como manteve suas tradições racistas e agrárias no sul. Este conflito mexeu tanto com o imaginário do americano que museus, roupas, armas, cartas de soldados e encenações de batalhas são um enorme filão de comércio, mas sempre mantendo a dicotomia Norte x Sul. Neste sentido, Um Estado de Liberdade joga uma nova luz sobre o evento.

O filme conta a história de Newton Knight (Matthew McConaughey), um pequeno proprietário de terras do interior do Mississipi que ao perceber a inutilidade de uma guerra que não era sua, deserta (como muitos soldados confederados) e volta para casa. Ao se dar conta das injustiças que os confederados cometem contra uma família de amigos, tenta protege-los, mas isso expõe seu status de desertor e ele precisa fugir. Ao ser ajudado, se une a também escravos fugidos e ali passam a tramar uma insurreição contra os confederados dentro de seu próprio território.

Devido aos desmandos do comando sulista, os desertores só engrossam as fileiras dos revoltosos, causando problemas reais aos grandes proprietários de terras e escravos da região, devido ao caráter abolicionista e igualitário da insurreição. Porém, quando Knight não recebe apoio nem da união, a revolta enfraquece, e o consequente fim da guerra e os acordos de paz entre as elites locais trazem uma paz para os ricos de outrora, mas uma perseguição intensa aos antigos escravos libertos, formando as primeiras células da KKK na região, tratados no excelente terceiro ato do filme.

Se por um lado a história de Knight é interessantíssima sob o ponto de vista da história local e de como uma pequena parcela da população local se organizou por conta própria, o filme trata o próprio protagonista de uma forma tão heroica que soa como uma das grandes biografias do passado, contrastando com a proposta de trazer novos tons a uma narrativa tão batida. O passado de Knight, que poderia explicar porque ele não era racista como seus iguais (a ponto de ter o primeiro casamento inter-racial registrado) no estado mais racista dos EUA, é completamente ignorado, e ele acaba encarnando o papel do “homem branco bom”, que assola os filmes passados na época.

Na mão de um roteirista e diretor um pouco mais competentes, toda a excelente produção e reprodução fiel das batalhas do século XIX, de uma guerra antiga, teriam uma importância muito maior, assim como o trabalho de atuação, muito competente, por parte de todo o elenco. Comparando com Tempo de Glória, todas essas diferenças de tratamento ficam abundantemente claras, no entanto, com essas escolhas dramáticas rasas, lembra mais O Patriota. Com seus 139 minutos de duração, tempo para desenvolver isso não foi uma questão, e sim direcionamento, ou talvez talento.

Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.