[Crítica] Um Limite Entre Nós

Tramas raciais e sociais sempre correm o risco de serem tratadas de forma pesada ou sem abordar outros temas necessários a compreensão do cenário geral, ainda mais no micro caso de uma família. Várias obras derraparam neste sentido, quando poderiam trazer debates muito mais ricos à tona. Felizmente, Um Limite Entre Nós não é destes casos.

Famosa peça de August Wilson, Um Limite Entre Nós foi estrelada por Denzel Washington e Viola Davis no teatro em 2000 e fez muito sucesso. Agora em nova adaptação aos cinemas, Denzel traz nova luz a esta comovente história que mostra uma multifacetada visão sobre uma família negra nos EUA durante os anos 50.

Troy Maxson (Washington) é um coletor de lixo em Pittsburgh na década de 50 em plena segregação racial. Guardando uma imensa mágoa por não ter virado jogador profissional de baseball em sua juventude claramente por questões raciais, Troy desconta sua frustração diariamente de forma passivo-agressiva em todos ao seu redor, especialmente em sua esposa Rose Maxson (Davis) e seu filho Cory (Jovan Adepo).

Falastrão e egocêntrico, Troy a todo momento coloca suas chagas a mostra para a família, e o orgulho ferido de nunca ter conseguido prover sozinho para sua família é um assunto sempre presente, afinal, a casa onde moram só foi possível ser comprada graças a indenização que eles receberam pelo fato de seu irmão Gabriel (Mykelti Williamson) ter se ferido gravemente na guerra e agora ser portador de necessidades especiais.

Todo o seu ódio reprimido é compreensível, mas com o movimento dos direitos civis ganhando força e o movimento negro em geral pressionando a sociedade por mudanças, Troy se mostra ao mesmo tempo uma figura digna de pena e raiva, afinal, tenta negar aos outros, especialmente a seu filho Cory, a oportunidade que também lhe foi negada.

Ao mesmo tempo em que dialoga com questões raciais, a trama dialoga com outras questões, pois coloca Troy como o marido sempre atencioso com a esposa Rose, que o corresponde, em uma relação aparentemente perfeita, mas que aos poucos vai mostrando pequenos rachas, com méritos para as sutis pistas de Viola Davis a cada frase e atitude de Troy. A sua resistência em construir uma cerca (daí o título original, “Fences”) no quintal por tanto tempo, onde cada hora é uma justificativa para adiá-la, também é uma metáfora para seu relacionamento.

A cada cena, a figura canastrona e boa praça de Troy como mostrada no início com seu amigo Jim Bono (Stephen Henderson) vai se desmontando ao mostrar a face repressora de sua personalidade, deixando claro que nenhuma pessoa é formada de um lado só. Da mesma forma, Cory busca melhorar de vida ao se mostrar um proeminente jogador universitário de futebol americano, mas Troy o impede de todas as formas possíveis da mesma forma que o impediram antes, e brigam, bêbado, até expulsar o garoto de casa, em uma cena comovente. Em outra cena, sem mais nem menos, é jogada a informação que Troy possuía uma relação extraconjugal com uma garota mais jovem, que está grávida e não sabe o que fazer, pois sabe também que isso acabará com seu casamento com Rose.

Na famosa cena que rende merecidamente o Oscar a Davis, Troy entrega toda a verdade e a peça consegue atingir outras camadas da realidade, onde o machismo do protagonista aflora. Seus argumentos, de que com a amante se sentia vivo, conseguia sorrir, se sentia livre das preocupações da vida, e por isso a procurava, soam totalmente ridículos frente ao desabamento emocional de Rose, onde ela questiona “E os meus sentimentos? E os meus sonhos?”, que ela deixou de lado enquanto escolheu viver ao lado de Troy. Na cena final, a frase que define a relação de ambos a partir dali. “Sua filha vai ter uma mãe, mas você não vai ter mais uma esposa”.

Um Limite Entre Nós oferece, então, um panorama poucas vezes visto na temática racial no cinema americano. Com vários contextos que dialogam entre si e diálogos ricos e bem construídos entre personagens equivalentes, mantém o espectador focado a cada palavra dita, que serve de ponte para a compreensão futura tanto das próprias cenas quanto dos personagens ali envolvidos, que não são nem um pouco unilaterais, afinal, a realidade não é.

Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.