Crítica | Uma Noite de 12 Anos

Temos uma clássica narrativa de cunho militar/ditatorial, sob a perspectiva de três prisioneiros, ou melhor, reféns de um governo uruguaiano ainda totalitário, e implacável com os seus subversivos. Aqui, o ditador ri da cara de quem queria mudar o mundo. Ameaça, e ri mais um pouco. Porcos a serviço da própria podridão, enquanto as humilhações e o escárnio a dignidade humana não cessam. Curioso como, em 2019, tudo isso parece retornar (após um curto período) na América Latina de sempre: super-instável, violenta, turbulenta. Refém das cobiças do primeiro mundo que nos vê tal um laboratório de experimentos sociais, facilmente manipulável. Dócil. Frágil.

O filme de Álvaro Brechner consegue denunciar, graças ao uso pertinente de uma mise-en-scène pesada e amplamente realista, grande parte da tensão sufocante que tanto corrompeu, e se infiltrou na estrutura das políticas latino-americanas. Explorando o peso de uma ditadura sentida na pele por três dos seus mais famosos sobreviventes compatriotas, mantidos em cativeiro sob forte guarita, e expostos a todo tipo de tortura física e psicológica dentro e fora das suas jaulas imundas, eis aqui o semi-triunfo de Uma Noite de 12 Anos, durante sua sessão cheia de altos e baixos: tornar perspicaz e tangível, na tela, a sensação de injustiça e perseguição quando as liberdades parecem ser coisa do passado, e a democracia, uma utopia além de quaisquer possibilidades.

Um drama a serviço do ato de resistência perante a uma intolerância absolutista, enquanto a sociedade é novamente (incansavelmente) levada a crer num certo e errado conveniente a um jogo de poder atual, presente no Uruguai dos anos 70 e 80 (e na infeliz Venezuela, dos anos 2010). José Mujica, num futuro já de outrora, viria a ser o presidente desta nação, o mais humilde e populista de todos os chefes, mas antes, junto de Mauricio Rosencof, jornalista e escritor, e Eleuterio Huidobro, ex-ministro da Defesa, tiveram de sentir a queimadura dos grilhões históricos que os seus e os nossos antepassados também sentiram, “de mãos atadas”, sonhando com as liberdades sociais como três meninos que sonham em ser astronautas.

Brechner confunde dramatização com sentimentalismo, rendendo boas cenas, simbólicas como precisam ser, mas mostrando-se inseguro quanto a capacidade da plateia em absorver a pressão que esses corpos e mentalidades sofreram. Assim, o cineasta torna este Uma Noite de 12 Anos um tanto pretensioso nos temas que expõe, sem a habilidade narrativa de debatê-los como mereciam – exceto em alguns rápidos (e rasos) momentos, como quando Mujica, vulgo Pepe, por meio de um delírio psicológico sendo submetido a tortura militar, vê todos em um bar algemados, e vendados, ao redor das mesas. A visão impressiona, evidencia a angustia onipresente de um período agressivo. Uma paranoia que começa a assolar a população, por inteiro, quando esta é pulverizada no ar, como os agrotóxicos e os preconceitos sociais que são borrifados para adoecer a população, em todos os sentidos.

Com nada de novo, e tudo de velho, vimos Pepe sendo preso junto de outros rebeldes, e seus maiores desafios enfrentados no cárcere. Seu inferno começa, entre escadas de sangue e tirania institucional – e os de fora também sofrem, famílias que compartilham de um mesmo sofrimento. É curioso como, ao longo de uma tempestade, o sol parece nunca mais voltar, e a cinebiografia transmite isso de forma eficiente, sendo esta sua principal função, devido a forma denunciativa na qual foi construída. Seus fortes apelos não passam em vão, mas tampouco fazem Uma Noite de 12 Anos ser tão marcante quanto poderia ser. Filme que se vale pelos seus temas, sua ambientação, e se isso já basta ao espectador, temos aqui um bom registro de uma época premiado na Mostra Horizontes do Festival de Veneza, e também no prestigiado Festival de Berlim, em 2018.

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